Andrew Yang speaking with supporters at a town hall at the American Legion Post 111 in Newton, Iowa.
"Andrew Yang" by Gage Skidmore is licensed CC BY-SA 2.0

Yang Segue em Frente

Durante a angariação de fundos dos candidatos para as Primárias Presidenciais do Partido Democrata de 2020, Andrew Yang, na altura também um candidato, é convidado para uma festa em Iowa chamada “Wing Ding”, onde estão outros como Tim Ryan, John K. Delaney, e Michael Avennati. Todos eles fizeram os seus discursos, marcando a sua imagem, otimismo e agendas de uma forma geral. Yang fala, Delaney fala, Tim Ryan fala, e finalmente Avennati que ao contrário de todos decide ler o seu discurso, num tom que faria lembrar uma criança cheia de tédio a realizar a prova oral de má vontade. Quer por comparação quer por si só, foi uma apresentação horrível, e ainda assim mereceu no final estar rodeado de jornalistas cheios de questões, seguindo-o por minutos e mais tarde escrevendo sobre o quanto Avennati “excitou a população de Iowa”. Todos os outros candidatos foram geralmente ignorados, especialmente Yang, uma maldição que se veio a confirmar em 2019 e 2020 durante os maiores momentos da campanha.

Esta pequena anedota é uma de várias que Andrew Yang usa para justificar os interesses da comunicação social, mostrando o quanto a elevação artificial de Avennati colocou sombra em outros discursos que foram claros e emotivos, e torceu a opinião geral dos eleitores de Iowa. O poder do “quarto-estado”, polarização política e a clivagem entre os eleitores e os políticos foram incentivos chave para Yang formalizar no dia 5 de Outubro a criação de um novo partido, o “Forward Party”, juntamente com o seu novo livro, “Forward”, que serve também de programa político do partido.

Democrata a sua vida toda, está agora confiante que “deixar de ser Democrata é a coisa certa”. Na verdade a sua história tem sido de imensos altos e baixos. O partido que diz acolher as minorias e defende causas identitárias, ao mesmo tempo não considera Yang alguém capaz de tomar os cargos mais importantes dos EUA, nem aprecia muito as suas ideias. Mesmo no seu eleitorado mais fervoroso, o “Yang Gang”, há quem admita ter votado em Joe Biden, quando ainda candidato, para não sentir que desperdiçou o voto. Yang abandonou a corrida e declarou apoio a Biden. Em 2021 estava em ímpeto para se tornar o próximo Prefeito de Nova York até à entrada do Democrata Eric Adams, que se colocou logo como possível vencedor na primeira saída dos votos, ultrapassando Yang que ficou em quarto. Yang concedeu a corrida, perdendo também a chance de liderar Nova York. Yang não tem falta de apoio nem de financiamento, aliás, em 2021 foi quem teve mais doadores individuais na história da cidade, e aparece em várias plataformas, incluindo podcasting, mas parece que permaneceu o sentimento de não ter conseguido fazer a diferença.

Os Estados Unidos têm imensos partidos além do grande duo Republicano e Democrata. Por exemplo os Verdes ganharam quase meio milhão de votos Presidenciais em 2020, e algures nos confins da Universidade de Georgia nasceu o Partido Pirata. O papel de tais partidos tem sido um de apoio a candidatos do partidos maiores, empurrando políticas que interessam principalmente a nível local, mas nem só. Yang tem ambições maiores. Quer que Forward tenha representação no Congresso e que abrigue todos os eleitores que estejam cansados das guerras culturais e todo o drama causado por redes como FOX News, NBC e CNN.

Sejam Democratas ou Republicanos, não precisam de mudar o registo para Independente caso escolham apoiar Forward, é um partido inclusivo que pretende unir a América de novo. O duopólio vermelho e azul tornou-se “um pesadelo dos Pais Fundadores dos Estados Unidos da América que ganhou vida”, e Yang quer Forward a apoiar candidatos que sigam os seis valores principais do partido: primárias abertas, votação por escolha qualificada, governação baseada em factos, Renda Básica Universal, economia centralizada no ser humano, graça e tolerância, e eficiência governamental.

O partido pretende levar a outros estados a votação por escolha qualificada com a missão de reduzir a clivagem entre eleitor e político, mas fica claro entre as linhas que este seria o método principal que daria chance ao partido de chegar ao poder; Renda Básica Universal tem sido a política de estimação de Yang desde as primárias, assustando democratas e republicanos com pesadelos socialistas que só Bernie Sanders consegue invocar; uma economia humana é aquela que centra o bem-estar do indivíduo em vez do lucro, mas na prática interfere na cultura das grandes corporações e até no lobbying; mas através de planos para uma maior eficiência governamental, antigos membros do Congresso serão regulados precisamente para não fazerem lobbying.

Andrew Yang tem o coração no sítio certo e aponta bem os problemas sistémicos que incentivam a comunicação social e os dois grandes partidos a polarizarem-se, e por consequência polarizarem os eleitores. Porém Forward é essencialmente o filho de um conjunto de ideias que Yang engravidou durante as campanhas, sem conseguir dar o nó. Não tem apoio suficiente para ser um presidente mas notou que consegue fazer a diferença a nível local, e que existe um eleitorado - mesmo no meio de celebridades como Greg Grunberg [Série Heroes] e Elon Musk [SpaceX] – que se desencantou com a política Americana e está farta de constantemente ter de votar entre uma má escolha ou uma escolha pior.

Será um projeto interessante de acompanhar porque lembra muito as tentativas em Portugal de levar a cabo formas de reduzir abstenção, e trazer a política para mais perto dos eleitores. Portugal ainda está na fase de conversão embora eu espere que as próximas legislativas mostrem resultados positivos. Forward tem imenso potencial para trazer o foco de volta a problemas locais fora das guerras culturais, mas grande chance que será outro projeto onde Yang seguiu em frente perto de fazer a diferença, mas ficou pelo caminho.

 

This article was updated on outubro 25, 2021

Igor Veloso

Igor Veloso é de Águeda, 30 anos de idade, e tornou-se sócio do Polititank em Outubro 2021. Autor do ensaio “Cidadania e Desenvolvimento: Explorando a Existência da Disciplina“, faz parte da equipa de design e edição do Polititank. Deseja que os portugueses tenham mais participação cívica, e estejam mais informados sobre as políticas do país.