Assembleia da República

Operação Militar Especial na Ucrânia

“Operação Militar Especial” – uma breve análise pessoal aos motivos que levaram Vladimir Putin a decidir invadir a Ucrânia

 

O dia 21 de Fevereiro de 2022 ficará na História como o início de uma ilegítima incursão militar russa nas Repúblicas Separatistas de Donetsk e Lugansk, consagradas nos Acordos de Minsk como Regiões Autónomas, contudo não soberanas ao governo de Kiev.

No seu discurso à nação russa – embebido de revisionismo histórico -, Vladimir Putin exortou aquilo que entende ser o “direito divino” da Rússia anexar a Ucrânia, na sua totalidade, por esta ter sido “totalmente criada pela Rússia” e ser “parte integral” da História, cultura e “continuidade espiritual” russas, culpando ainda os líderes soviéticos por terem concedido autonomia à Ucrânia enquanto República Socialista Soviética – “Ucrânia de Vladimir Ilyich Lenine. Ele é o seu autor e arquiteto”, etc. Este comunicado é, a meu ver, a verdadeira demonstração das intenções de Putin e do seu projeto para a recuperação da zona de influência russa, ou seja, a reconstrução de um novo “Império Russo”, em pleno século XXI. Quais são, assim, as razões para esta incursão?

A projeção do poder de Vladimir Putin e, por conseguinte, da Rússia, tem por base a restauração do poder russo nas ex-repúblicas soviéticas e, talvez, na própria Europa Central, agora quase totalmente composta por países pertencentes à OTAN. A forma como é propagandeado esse mesmo poder junto do povo russo causa alguma ambivalência ao Ocidente, já que Putin joga, no meu entender, com dois fenómenos históricos e geopolíticos ideologicamente distintos – o Império Russo e o Império Soviético. A meu ver, esta dicotomia russo-soviética tem que ver com a perceção e memória do povo russo enquanto superpotência mundial. Com isto quero dizer que, a referência à União Soviética enquanto período “glorioso” da História russa serve apenas como subterfúgio para alimentar as almas russas sequiosas de nacionalismo e projeção de poder.

O nacionalismo contém, além de um claro estímulo à diferença entre povos - “Nós vs Eles” -, uma enorme carga emocional relativa a períodos históricos caracterizados pela grandeza da Nação, nos quais o povo tenha experienciado esse mesmo poderio ou grandiosidade. Pensemos no caso russo: certamente teria pouco impacto junto da população russa referências ao Império Russo, ao tempo dos czares, à expansão de Pedro, O Grande, ou da Czarina Catarina. Porém, a era soviética ainda é algo muito presente nas mentes dos russos, principalmente nos mais seniores, como um tempo bipolar com a União Soviética como superpotência internacionalista do ideário de Lenine e Estaline. Evidentemente que o último foi responsável por, pelo menos, 30 milhões de mortes, mas nada disso parece contar para uma potência revisionista como a Rússia de Vladimir Putin, que procura incessantemente desvalorizar o Grande Terror estalinista da década de 1930, glorificando a sua (brutal e desumana) liderança durante a II Guerra Mundial. Esta é, no meu entender, a principal razão pela qual se faz alusão em todas as paradas militares na Praça Vermelha, ao passado soviético através do uso da foice e do martelo ou até a melodia e letra do hino russo, mera adaptação do hino soviético.

O mais perfeito exemplo desta dualidade czarista-soviética foi o excerto do discurso de Vladimir Putin elencado no princípio deste artigo – “Ucrânia de Vladimir Ilyich Lenine – ele é o seu autor e arquiteto”: Putin não pretende reavivar o comunismo, nem reconstruir o Império Soviético; as suas intenções são claras – reconstruir o Império Russo no espaço de influência soviética. A ideia soviética de igualdade entre repúblicas (ainda que dúbia) foi agora substituída pela ideia de subjugação ao imperialismo russo.

O principal pensador por detrás das ambições deste homos sovieticus com tiques imperialistas dá-se pelo nome de Alexander Dugin, filósofo russo ultranacionalista. Na sua obra, “Fundações da Geopolítica”, Dugin traça aquilo que entende ser o itinerário da política externa russa, baseada no Ortodoxismo enquanto motor da expansão russófila, defendendo a expansão natural da Rússia sobre os países de maioria ortodoxa, como a Ucrânia ou a Moldávia: com a Queda de Constantinopla em 1453 às mãos do invasor muçulmano, a sede espiritual da Igreja Ortodoxa foi deslocada para leste, mais precisamente para Moscovo. Esta decisão levou à criação do ideário de Moscovo e, por conseguinte, da Rússia, enquanto a “Terceira Roma”, ou seja, o último reduto do cristianismo romano, a casa da Ortodoxia. É esta, no meu entender, a primordial razão para as vontades expansionistas de Vladimir Putin e não a restauração do comunismo soviético na Rússia, Europa de Leste e Cáucaso.

Tudo isto nos leva para o atual conflito armado na Ucrânia, envolvendo os exércitos de Vladimir Putin, Volodymyr Zelensky e separatistas pró-russos leais ao suserano de Moscovo, sob o pretexto do primeiro “desnazificar” o governo ucraniano. A referência de Putin aos “nazis” remonta, a meu ver, à alegada colaboração de parte da população ucraniana com o invasor nazi durante a Operação Barbarossa em 1941. Aquando da ocupação da RSS da Ucrânia pela Wermacht, muitos ucranianos celebraram a chegada do invasor, traumatizados com a integração soviética, mais precisamente pela fome que assolou a república de 1932 a 1933 – o Holodomor, período no qual pereceram 1.8 a 12 milhões de ucranianos devido às políticas de interrupção voluntária, por parte de Estaline, de abastecimento de água, eletricidade e bens essenciais. Como tal, é de esperar que o pobre povo ucraniano acolhesse o invasor nazi como alternativa ao poder soviético que tanta miséria e morte lhes provocou, como uma realidade invertida da justificação dos independentistas birmaneses ao aliarem-se aos colonialistas ingleses contra a ocupação nipónica: “os britânicos chupam-nos o sangue, os japoneses arrancam-nos a carne até aos ossos” – os nazis chupam-nos o sangue, os soviéticos arrancam-nos a carne até aos ossos.

Termino com uma frase que demonstra bem a lição que, acredito, o Ocidente tenha aprendido a respeito da política de appeasment adotada inicialmente, tal como naqueles fatídicos dias de 1938 durante a assinatura do Pacto de Munique que entregou a Checoslováquia a outra tirania, desta vez a Alemanha Nazi:

“Os ditadores podem ser dissuadidos, podem ser esmagados, mas nunca apaziguados”, Margaret Thatcher