Imagem por Stand for Press Freedom

 O Retrocesso Atual do Jornalismo

O papel do jornalismo – livre e não controlado - na democracia é crucial para o bom funcionamento da mesma. É certo que, em pleno século XXI, nunca tivemos uma esfera e opinião públicas tão desprendidas como agora, todavia, múltiplas falhas se têm sucedido. Marcas essas que não podem ser deixadas de lado e merecem, em nome da liberdade, nem mais, nem menos, que a nossa atenção e, consequentemente, a nossa ação em nome das mesmas.

Os últimos acontecimentos da Política Internacional têm-nos ensinado, igualmente, as claras fragilidades da Democracia e têm-nos mostrado a força da mesma em combater esses mesmos desafios e incertezas. Umas vezes de forma bem-sucedida, outras nem tanto. A verdade é que a nossa liberdade de expressão, a tal que damos sistematicamente por garantida, está em risco de extinção, principalmente em determinados cantos do Mundo.

Estatísticas do presente ano demonstram um número crescente e recorde, de jornalistas presos à custa de certas declarações de caráter subjetivo, de determinadas notícias expelidas contra o Regime ou até mesmo à custa da própria profissão levando à hipotética, mas séria, opção de este ser um emprego com data de validade.

Um fenómeno destes deve-se e  o reflexo, em parte, do aparecimento em massa de regimes autoritários e o seu fortalecimento no mundo levando ao acumular gigantesco de crises económicas, culturais, internas e civis, e ao atentado aos direitos fundamentais a cada cidadão. Estes regimes, por norma, não recebem por parte de Organizações Internacionais -que visam o respeito pelos Direitos Humanos entre outras premissas -ou outros Estados de maior assento internacional, pressão suficiente para alterar tais comportamentos internos e para libertar o povo da opressão existente, o que piora criticamente a situação.

Como seria de prever, a China lidera esta sondagem e apresenta-se na frente do ranking. Apesar de a Rússia se colocar mais abaixo na tabela de resultados, é vantajoso juntá-la ao Bloco Chinês pois ambas possuem semelhantes razões para a opressão por parte do Estado. Ora, como já fora dito, um dos maiores motivos para a existência de perseguição jornalística é a consolidação de regimes de autoritarismo. A Rússia e a China não o são. Afirmativo. Conquanto, apesar de se esconderem por detrás de uma democracia podre, não possuem quaisquer considerações para com os direitos humanos, eleições livres –onde a maioria da oposição é presa ou apresentada como desaparecida-, liberdade de expressão e pensamento, separação de poderes, pluralismo político, entre outros princípios específicos e caracterizadores do Ocidente Democrático. Ambas são potências com características singulares de um autoritarismo/ ditadura, depende da perspetiva. Apesar de não se afirmarem e admitirem como tal. O porquê? Dava azo a um outro artigo.

Tanto na China como na Rússia a intolerância, intolerância essa que já ultrapassa o próprio conceito em si, aos jornalistas deve-se à quantidade de pessoas que se opõem ao regime e ao seu Representante. Esta já é razão suficiente para se passar umas noites na esquadra pois um Verdadeiro Líder, no pensamento de Xi Jinping –Presidente da República Popular da China- e de Vladimir Putin –Presidente da Rússia- não deve possuir oposição, deve ser temido e deve usar e abusar da perseguição e violência dada a simbologia de poder e autoritarismo que possuem.

Myanmar, antiga Birmânia, é um país no Sudeste Asiático que faz fronteira com a Índia, Bangladesh, China, Laos e Tailândia. Ocupa a segunda posição na estatística, bem acima da Rússia.

Ora, há um ano atrás Myanmar não constava sequer na lista, contudo, após o golpe militar de 1 de fevereiro e a perseguição aos meios de comunicação independentes –jornalistas- e a membros da oposição, os números dispararam. Atualmente Myanmar apresenta-se como uma ditadura militar, um pouco diferente do que acontece na China e na Rússia, mas com parâmetros semelhantes: o da violação das liberdades, direitos e garantias e tormento a oposições políticas.

Após Myanmar possuímos países como a Bielorrússia, Vietname, Coreia, Arábia Saudita, Turquia -que pretende entrar na União Europeia.

Aproveitando a menção da Turquia, o mandato de Erdogan –Presidente da Turquia-, está assombrado pelas violações de direitos humanos, violações dos direitos das mulheres, violação da liberdade de imprensa, perseguições e torturas homofóbicas, entre outras políticas que provocam o “não” da União Europeia à entrada deste mesmo país.

Um exemplo perfeito para comprovar todas as práticas realizadas no território de Erdogan foi o recente episódio com Emmanuel Macron –Presidente da França. Neste incidente, Charlie Hebdo, um dos jornais de espírito crítico mais conhecidos em França, fez uma espécie de caricatura de Erdogan. Tal já é hábito para os franceses, pois nem os próprios líderes políticos escapam à sátira elaborada pelo meio de comunicação. Conquanto, tudo é levado com a devida levidade graças ao espírito democrático. Erdogan, por sua vez, ameaçou e tentou intimidar Macron.

Este ranking demonstra-nos, assim, que uma das maiores essências da democracia –a liberdade de expressão- ultrapassou o estado de crise e está em perigo iminente de desaparecer. Este perigo espalha-se por todos os Continentes, não só pelo africano e asiático, como tanto se apregoa.

O período entre Guerras, assim como a Guerra Fria, serviu como pretexto para a formação de regimes autoritários –como a Era de Saddam Hussein no Iraque e a Era de Muammar al-Gaddafi na Líbia- que ainda hoje vigoram através do mesmo representante ou com a formação de dinastias, não permitindo a alteração de Chefe de Estado e, assim, enfraquecendo o espírito democrático das eleições livres por sufrágio que, por sua vez, são negadas aos civis reprimidos.

Daqui a sensivelmente um mês teremos eleições no nosso país e, por isso, devemos estar gratos e dar uso ao nosso direito. Vários povos, neste preciso momento, estão a lutar por aquilo que hoje damos por garantido e, por vezes, desvalorizamos. Pelo simples facto de me ser permitido escrever este modesto e exíguo artigo, devo estar grata por viver numa democracia.

O jornalismo, hoje em dia, é o que nos permite estar constantemente ao corrente de tudo e nos permite criar uma opinião crítica da situação em si. Faz-nos crescer enquanto pessoas e enquanto cidadãos críticos. E essas mesmas opiniões derivadas ao nosso espírito crítico fazem-nos querer alterar o nosso mundo, mesmo que o efeito e/ou a probabilidade de isso acontecer seja 0.00001%. Conquanto, como diz o provérbio “a vontade muda montanhas”.

Em suma, a liberdade de expressão é das armas mais poderosas, daí ser reprimida a todo o custo em regimes antidemocráticos ou até mesmo em regimes democráticos. A luta pela a preservação deste direito deve ser constante e exaustiva. Que a mesma seja bem-sucedida em todo o Mundo e que não sejam necessários mais rankings e que nem haja a necessidade de voltar a fazer estatísticas deste caráter.

Sendo a liberdade de expressão um dos grandes pilares da democracia, não podemos, nem devemos aceitar qualquer imposição que nos é feita nem qualquer contaminação totalitária que tente entrar na nossa mente.

Posto isto, vemos hoje retrocessos na nossa sociedade que considerávamos já ultrapassados, limitações que ainda não foram convertidas em liberdades e marcas ditatoriais que se tornam, ao longo do tempo, cada vez mais fortes através da imposição de um único pensamento- o do ditador-.