Assembleia da República

O Estado de Negação da Oposição

Tivemos o Estado da Nação, onde vimos António Costa a passear-se no plenário, a oposição nada foi capaz de fazer, rigorosamente nada. O que nos faz pensar que as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, que queria um governo forte, mas uma oposição ainda mais forte, não tenham consequência nenhuma.

O Estado da Nação tende a ser o debate dos debates, onde os melhores argumentos são esgrimidos e onde aquele ano da legislatura é basicamente passado em revista, as falhas vão sendo acumuladas na legislatura e depois serão rebatidas nesse mesmo debate, que as televisões tanto gostam de cobrir e dar nota aos pontos positivos e momentos quentes do debate.

Não houve grande análise, percorrendo os habituais comentadores a opinião é unânime: foi mais para verificar o Estado da Oposição. E está num estado lastimável.

Olhar para António Costa e depois para a bancada da Direita, em que Cecília Meireles se destaca, é quase igual no tempo em que tínhamos Pedro Passos Coelho e na Esquerda tínhamos bons momentos de Carlos Zorrinho, mas uma liderança sem carisma de António José Seguro, abrindo espaço para um Bloco de Esquerda, aguerrido ganhar espaço, inspirado naquilo que o Syriza fazia na Grécia.

Podíamos achar que com um PSD fraco, o CDS-PP poderia crescer, mas não o consegue fazer pois o antigo Chicão, Francisco Rodrigues dos Santos, passou a Chiquinho, tem voz rouca, mas não tem voz grossa para se poder debater de igual para igual, vai atrás das migalhas de Ventura, que tem um falso carisma. Cecília Meireles deve assumir o comando, não vejo que Nuno Melo seja a solução para o CDS-PP, no Parlamento Europeu não goza de prestígio ou de contributos maiores. 

O CDS-PP perdeu liberais para a Iniciativa Liberal, alguns mantém-se liberais, outros ainda procuram a sua razão de existência, mas vão a reboque de poleiro e de amigos. Perdeu conservadores para o Chega, que fez um discurso duro, de protecção da família cristã, a copiar da Hungria de Órban, mas ao Chega, lá chegaremos. O ramo dos monárquicos… não tem muita piada. O CDS-PP era o partido tampão, mas que a Esquerda sempre gostou de martelar, ridicularizar, chamar de betos, agrobetos, em alguns cenários colocaram-se a jeito, mas tanto bateram, que ajudaram a enterrar, mas isso demonstra que o CDS-PP não tinha poder de resposta. Assunção Cristas entrou em delírio próprio, achou que a Câmara de Lisboa era Portugal, mas não o é, não quis saber dos sinais, ruiu, não preparou sucessão e pronto, andará por aí.

A Iniciativa Liberal promete muito, nas redes sociais faz voz grossa, João Cotrim Figueiredo é eloquente na forma como fala no parlamento, mas só ouvimos falar da liberdade e dos impostos e o combate ao socialismo, que fazem confundir com comunismo, é o que dá ler livros e pensadores anglo-saxónicos e não perceberem que as mentalidades e semânticas são diferentes. Houve este número feito no Parlamento a propósito do artigo 6º da Carta dos Direitos Humanos na Era Digital, que na votação da mesma Carta se absteve, mas agora quer ser o paladino da liberdade… Os eleitores já não vão nessa e os próprios militantes foram capazes de apontar o dedo, afinal de contas, há que haver a liberdade de pôr em causa o líder, certo?

Falta à Iniciativa Liberal implementação local, significa isto que as pessoas ainda não se sentiram tocadas, a onda liberal ainda não chegou lá, continua tudo centralizado nas zonas urbanas, ir a eleições em meia centena de câmaras é pouco, para quem já anda nisto faz algum tempo

Mas é preciso mais do que isso, é preciso ir além de um discurso ideológico, que só afasta o eleitor comum, que está farto de políticos de pedestral, que gostem de efectivamente ser diferentes. O Povo gosta de futebol, não de padel.

E é do futebol que vem o André Ventura. Um falso carisma, em que à boa maneira provinciana portuguesa do século XIX o que vem de fora é que é bom e como diria o Dâmaso Salcede dos Maias: “chique a valer!”. É dançar YMCA como o Trump, é copiar discursos de Salvini, e as posições de Viktor Órban.

André Ventura não é capaz de ter uma linha de conduta própria, é forte com os fracos e fraco com os fortes, ou com aqueles que lhe interessa ter em órbita. Alguém que pertença a outro quadrante é automática corrupto e que nada faz e vive à conta dos desgraçados que pagam impostos, sobre Luís Filipe Vieira nem uma palavra. É um partido que vai ficar muito exposto nas eleições autárquicas, serão visíveis os militantes de base, o verdadeiro partido, e isso é algo que André Ventura não consegue dar cobro, tanto que andando pelo país, vemos os partidos a colocarem imagens dos cabeças de lista à Câmara Municipal e à Assembleia Municipal e Junta de Freguesia, nos cartazes do Chega aquilo que vemos é o candidato à Câmara Municipal com André Ventura, parece quase a triste estratégia do PT no Brasil: “Haddad é Lula”, a política não funciona assim.

É um partido que tal como o Bloco de Esquerda, precisa de radicalizar, pegar naqueles que se acham vítimas e construir uma narrativa de que só aquele partido não deixará Portugal cair no abismo.

Por último, temos um PSD, que nada nem ninguém faz lembrar, nem quando foi aquela crise de liderança: Marques Mendes, Luís Filipe Menezes e Ferreira Leite, um tão mau estado, as eleições autárquicas são o teste final para Rui Rio, ou passa ou não passa. O que virá a seguir? Virá Passos? Virão aqueles que querem ser mais passistas do que o Passos? Certamente serão momentos conturbados e caso não fique Rui Rio, quem vier, vai ter que jogar com os soldadinhos que Rui Rio deixa no Parlamento, aí será um teste, pois um bom general faz maravilhas com soldados rasos.

O PS vai a banhos, mas apenas uma parte, a máquina ainda não pode descansar pois o PS é quem tem mais a perder nestas eleições, devido ao facto de ter mais câmaras conquistadas, há mais castelos a defender e fogos a apagar e todos são poucos.

António Costa põe e dispõe da Esquerda como quer, significa isto fazer o que quiser do país, lembram-se ainda que ele se candidatou a Secretário-Geral do PS com o mote de: Agenda para a Década? Acho que vamos ter 2 décadas de António Costa, se este continuar a ser o Estado da nossa Oposição.

 

 

 

 

Este artigo é de opinião e por isto suas ideias reflectem a visão do autor e não de todos os membros do Polititank.