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O Comboio da Liberdade e os Carris da Decência

Atualmente, fala-se no comboio da liberdade em Ottawa, que se propagou em várias zonas do globo. Uma demonstração feita por camionistas e outros cidadãos contra o que consideram que infringe a sua liberdade.

No abstrato, é, para mim, fácil concordar com o movimento. Um certificado de vacinação não faz sentido, na medida em que também não apresentamos para doenças mais graves (leia-se, por exemplo, sarampo, varíola, tuberculose e afins), porque não faz sentido. Até porque alguém que não tenha sido vacinado para essas demais doenças por algum motivo de saúde nunca foi proibido de ir seja onde for.

No caso, por exemplo, da vacina da gripe, que é também opcional (tal como a do covid) e com reforços anuais, nunca antes proibimos ninguém de fazer algo só por não a tomar, e as consequências serão de quem decide seja o que for. Posto isto, não creio que seja necessário a interferência do estado. Mas é sim necessário que as pessoas se recordem se faz sentido pedir tal coisa. Numa empresa, sempre pedimos o boletim de vacinas, como tal, as empresas devem avaliar se pretendem que os trabalhadores estejam vacinados ou não. Sejam as decisões de quem as toma.

Dito isto, é possível ambos os lados estarem a cometer erros. Ninguém é perfeito e todos os cometemos, afinal. Tanto o do governo do Canadá (e alguns outros que tentaram impedir a manifestação), como de quem protesta. Que não se coloque em causa o direito de qualquer pessoa se manifestar sobre o que acha correto. Podem, e devem, fazê-lo. Contudo, temos formas de o fazer. Uma manifestação pressupõe que sejam respeitados os termos legais para o fazer, como tudo o que isso implica. E não posso deixar de notar que houve um certo, e perdõem-me a expressão, sentimento de “não saio daqui enquanto não me derem o que quero”. Com todo o respeito, isto não é uma manifestação, é uma “birra”.

Defendo, com isto, que devem ter todo o direito a se manifestar, seja contra o certificado, seja pelo ordenado, o que seja. As suas vozes merecem ser ouvidas. Mas respeitando os termos em que todos concordámos em fazê-lo.

Contudo, há que ver também o percurso dos média no que toca a este movimento. Só porque alguém é contra o certificado, não significa que seja de extrema-direita. Muitas vezes, talvez pela pressão de ser o primeiro a publicar, ou talvez por irresponsabilidade, é mais fácil rotular a demonstração como “a extrema-direita”, em vez de fazer o trabalho jornalístico de questionar, investigar, procurar informar o público ao invés de criar títulos sensacionalistas. Rotular alguém como “extrema-direita” tem tornado o processo mais fácil na medida em que não se questiona alguém, porque são “extremistas”. Mas de relembrar que, numa sociedade em que falamos bastante em polarização, isto só contribui para mais disso, e nunca menos. Que se promova o diálogo, não o isolamento de raciocínios. Aliás, sempre que pedimos união, devemos talvez também trabalhar para ela, e não afastar os demais com “se não concordas comigo és extremista”.
Em conclusão, o povo é sábio e costuma dizer: “Em casa onde não há pão, toda a gente ralha e ninguém tem razão”. O tempo que passamos a apontar os erros dos demais, talvez também devêssemos olhar para o nosso lado e ver o que fazemos errado, e tentar melhorar isso. E assim, talvez, possamos contribuir para a diminuição do atrito entre cada grupo de pessoas.

 

Este artigo é de opinião e por isto suas ideias refletem a visão do autor e não de todos os membros do Polititank.