Polititank/Igor Veloso

Macronismo em Queda Livre

Faltam quatro dias. Quatro dias para um dos dias mais decisivos para os franceses. Quatro dias para a segunda volta das Eleições Presidenciais Francesas. Mesmo não possuindo o mediatismo nem a importância ou sequer o impacto que as eleições norte-americanas provocam na Cena Internacional, as eleições francesas são cruciais para a perceção e o rumo da política europeia enquanto Potência Estatal e Potência promotora do equilíbrio europeu no status-quo.

A França possui uma posição extremamente forte no palco europeu, principalmente agora que a França ocupa a Presidência do Conselho da União Europeia, em virtude da rotatividade do órgão. Macron tem capitalizado ao máximo este cargo de forma a tentar apropriar-se do papel de “o rosto da Europa”, que anteriormente pertencera à ex-Chanceler alemã Angela Merkel.

Tal esforço tem-se vindo a verificar recentemente em todos os esforços encetados por Macron de forma a alcançar o tão desejado cessar-fogo no conflito que envolve a Rússia e a Ucrânia, principalmente nas regiões ucranianas mais disputadas, com um maior número de baixas e com um maior número de deslocados para outros países fronteiriços.

Nas últimas semanas muito ouvimos acerca das eleições francesas. Todavia, muito mais ouviremos falar nas semanas que se seguem. Extensas e desnecessárias explicações, apresentações dos candidatos serão elaboradas, assim como ex-Ministros, ex-Presidentes da República marcarão presença nos diversos canais televisivos de forma a marcar posição e, certamente, tentar afastar a extrema-direita do panorama político francês.

Ora, todas essas explicações exaustivas, apesar de possuírem uma conotação positiva, de pouco irão servir e, dificilmente, ajudarão a compreender a realidade política francesa, os seus pressupostos, a natureza dos partidos e, acima de tudo, o rumo que a França poderá seguir tanto ao nível doméstico como ao nível do Conserto Europeu.

As matérias presentes em todo e qualquer debate político francês são: a (in)segurança, o racismo, o terrorismo, a saída da UE e da NATO e modificações dos estatutos da França em ambas as Organizações Internacionais–no caso da Marine Le Pen, candidata da extrema-direita francesa -, as reformas sociais, a regionalização, a pandemia COVID-19 (e a vacinação) e, como é natural, o atual conflito Rússia-Ucrânia.

A imigração excessiva e a falta de práticas para o seu controlo, por sua vez, estão presentes em qualquer discussão ou conversa. Esta é uma das principais bandeiras da direita francesa e que levam muitos votantes deslocar-se às urnas- o seu combate e/ou a mudança das políticas liberais que têm vindo a ser praticadas ao longo dos anos.

Poupando as tradicionais sondagens levadas a cabo pelos media sensacionalistas, a verdade é que a França, neste momento, possui apenas duas opções: ou continua com o Macronismo ou vira o jogo conduzindo Marine Le Pen à vitória eleitoral.

Qualquer eleição que decorra na Europa influencia a política levada a cabo pelo bloco europeu. Conquanto, é importante salientar que as eleições francesas produzem um efeito bastante bem mais profundo pois representam uma putativa alteração do rumo da Política Europeia.

Tomemos o exemplo das eleições húngaras que ditaram a vitória de Viktor Órban e que levaram ao desencadeamento de uma onda revolucionária contra o resultado final apurado. Apesar da manifesta insatisfação de grande parte dos europeus, o resultado eleitoral da Hungria pouco ou nada influenciará o Palco Europeu.

Por sua vez, a situação francesa é diferente.

A França representa o equilíbrio na balança europeia a nível cultural, económico, político e, ainda, simbólico, sendo a Pátria-Mãe dos pressupostos liberais –Liberdade, Igualdade e Fraternidade- apresentando consigo um vasto conjunto de prerrogativas associadas a tais ideais. É vista como a peça indispensável no puzzle europeu e, inclusive, no puzzle de escala mundial. É frequente observarmos a França tomar posição em conflitos mundiais ao lado dos aliados; a encarregar-se das mais distintas pastas de política externas dos vários Estados; a lutar pela paz Europeia e, consequentemente, Mundial.

No caminho Macroniano, a União Europeia permanecerá como a temos visto, especialmente neste contexto de conflito: unida, defensora dos Princípios consagrados na Carta das Nações Unidas de 1945 e dos princípios-tipo ocidentais, possuidora e impulsionadora da entreajuda entre os Estados-Membros, assim como da cooperação estatal e de negociações permanente, como forma a se conseguirem alcançar as melhores soluções possíveis para os diferentes problemas.

Assim sendo, com Macron, encontraremos uma certa estabilidade, que terá o a sua base na comunicação permanente entre os Estados-membros. O politicamente correto continuará presente e a sobrevalorização dos discursos amigáveis e defensores da paz continuarão. A frequente crença utópica que a negociação tudo resolve continuará presente na Europa enquanto conflitos, revoluções, movimentos radicais e/ou extremistas, terrorismo, apropriações se alastram em todos os territórios, sem qualquer exceção.

O segundo caminho da França é de Marine Le Pen. O que significará a vitória de Marine Le Pen para a Cena Internacional e para a Cena Europeia?

Marine Le Pen, candidata assumida de extrema-direita, altera todo o seu discurso em comparação a Emmanuel Macron em todos os temas tangentes à União Europeia. Le Pen é considerada um perigo para os fãs incondicionais do progressismo europeu, assim como da democracia europeia por ambicionar sair da União Económica e Política.

De forma a garantir uma maior aceitação desta ideia pelo eleitorado francês, Le Pen afirma que a saída da França da União Europeia (‘Frexit’ como os teóricos lhe gostam de apelidar só acontecerá se esta for a decisão final dos franceses expressa em referendo. Esta é a forma mais democrática e estratégica que um político pode utilizar para inserir um determinado tema polémico no seu programa político, uma vez que o referendo é visto como o instrumento de democracia direta mais justo - Soberania Popular, já dizia Jean Jacques-Rousseau, juntamente com a sua tese de Democracia Direta.

Na ótica de Marine Le Pen, as “regras” da União Europeia não se devem sobrepor às leis francesas e a França não deve perder parte da sua soberania nem do seu poder jurídico para a União Europeia, apelando, ideologicamente, ao nacionalismo. Conquanto, a melhor pretensão da candidata de extrema-direita não se baseia da França da União Europeia. Le Pen considera que a contribuição francesa é que deve diminuir, pois a UE não cumpre, na sua maioria, os seus pressupostos e as diretivas, da mesma forma que a burocracia europeia deve apresentar uma drástica descida em termos quantitativos. Posto isto, o ‘Frexit’, é apenas uma carta no baralho de opções para esta pasta de política externa à disposição de Le Pen.

Quanto à NATO (Organização do Tratado do Atlântico-Norte), a resposta é mais clara: Marine Le Pen apresenta uma opinião bastante previsível tendo em conta a sua oratória- a França deve demonstrar uma posição de força e autoridade na organização militar para não se subjugar a todas as suas deliberações, uma vez que, a maior parte, não respondem a problemas franceses.

O Destino da União Europeia está nas mãos dos franceses no dia 24. Os europeus encontrarão mais 5 anos com a estabilidade de Macron ou provarão a prepotência de Le Pen? Macron é a escolha segura dos europeus se desejarmos uma continuidade e um líder não eurocético. Le Pen, mesmo que não saia da União Europeia no seu mandato, com certeza baterá o pé e procurará um certo revisionismo para com as decisões europeias e os próprios líderes europeus pertencentes ao complexo.