Assembleia da República

Legislativas de Cabeça Fria

Este artigo de opinião foi publicado na edição de 4 de Fevereiro 2022 do semanário Jornal Diabo, com o título "Se os jovens emigram estamos perdidos".

Regressar a casa às 8 horas e pico depois do trabalho e ver o resultado destas legislativas na televisão, desapontou-me bastante, quer no dia em que escrevo isto até ao dia que o leitor vai ler. Partilho da surpresa e talvez alguma da revolta, mas recuso-me a reforçar essa linha de pensamento. A verdade é que vão ser mais quatro anos de trabalho pela frente, trabalho que existiria independentemente de quem tivesse a maioria.

Comparado com 2019 a abstenção desceu dos 51% para os 42%, logo é uma batalha que este ano se pode dizer ter sido ganha. Houve muita gente jovem estreante a votar e até abstencionistas que não votavam há anos, incluindo décadas, a aparecer nas urnas. Este voto foi secreto mas útil para a democracia Portuguesa porque deu legitimidade a todos os deputados que nos vão representar no Parlamento.

Por falar em útil, parece que o PS e a esquerda fizeram um maior uso do chamado “voto útil” do que a direita, no entanto também parece que partidos pequenos não são culpados. É verdade que o Chega e IL “roubaram” muitos eleitores e militantes ao PSD, e com isto cresceram, no entanto os números mostram um crescimento na votação do PSD, logo o número de eleitores que votou na IL não consegue justificar o fracasso pelo qual o próprio PSD tem culpa.

Rui Rio passou o tempo quase todo, e com legitimas razões, a apoiar o PS nos seus projetos, mas a sua comunicação descrevia um partido que não era de direita porque a “social democracia é de esquerda”, o que é verdade de um ponto de vista da ciência-política. Todavia PSD, no contexto português, sempre fez parte da direita, e Rui Rio achou por bem “desmistificar” este conceito tentando colocar o PSD ao centro. durante a campanha Rio se lembrou que o PSD tinha de se tornar a alternativa à direita e angariar o apoio de partidos de direita, exceto o Chega, embora este último tivesse os números necessários para consolidar a maioria à direita. O resultado ficou este domingo à vista.

A IL curiosamente também retirou eleitorado ao BE e ajudou a esvaziar um CDS que aos anos se tinha vindo a esquecer como se tornar popular. Nas redes sociais era um partido muito morto, e apesar de mostrar fortes sinais de vida a nível local nas autárquicas, ficou claro que a liderança não estava à altura deste desafio, e a equipa de marketing simplesmente adormeceu. Segundo fontes próximas, alguns núcleos encontravam-se completamente desorganizados e pouco ativos. Tal como o PSD, chegou tarde para mostrar ao povo essa identidade de direita conservadora “moderada” que seria a alternativa ao PS. A IL e o Chega, mais uma vez, absorveram várias linhas de conservadores – urbanos e rurais – com uma boa parte com ensino superior (IL) e outra com ensino secundário (Chega) - (ver Pedro Magalhães) -, eleitorado tal que era o corpo e alma do CDS desde sua génese.

Por fim, há muitos jovens agora a ameaçar emigrar, revoltados e temendo os próximos anos sobre a liderança do PS. Mas há dois pontos: primeiro, mesmo que a direita, fosse qual fosse, ganhasse a maioria absoluta, não mudaria o país em 4 anos, embora pudesse iniciar algumas políticas. Emigrar agora ou depois seria a mesma coisa, exceto que o barco em vez de apanhar velocidade, ameaça ir afundando. É uma questão de moral.

Segundo, a direita efetivamente tem um novo ímpeto e estreias no Parlamento (e a extrema-esquerda encolheu) que vão precisar de todos nós, principalmente dos nossos jovens . Se estes nos abandonam, não só a idade da reforma ameaça subir exponencialmente, como perdemos a nossa soberania. Temos uma população velha que pede reformas fiscais que só o PS promete, e a direita tem de se adaptar a esta complexa demografia.

 

Este artigo é de opinião e por isto suas ideias reflectem a visão do autor e não de todos os membros do Polititank.

This article was updated on fevereiro 21, 2022

Igor Veloso

Igor Veloso é de Águeda, 30 anos de idade, e tornou-se sócio do Polititank em Outubro 2021. Autor do ensaio “Cidadania e Desenvolvimento: Explorando a Existência da Disciplina“, faz parte da equipa de design e edição do Polititank. Deseja que os portugueses tenham mais participação cívica, e estejam mais informados sobre as políticas do país.