Kim Jong-Un e as Armas Nucleares: Um Amor Sem Ódio

 Coreia do Norte. A Coreia de Kim Jong-Un, atualmente. O Estado com a cultura mais homogénea do Mundo, atrevo-me. Hoje em dia, é associada ao isolacionismo, ao controlo estatal da economia, ao atraso e aos bloqueios enquanto potência mundial e face aos restantes Estados. É, ainda, considerada um país intrigante, cujo regime assenta numa ditadura vitalícia, que percorre gerações inteiras não dando azo ao espírito democrático do próprio estatuto. Sendo um presente da Guerra Fria e, graças aos impulsos soviéticos, às hostilidades com os vizinhos sul-coreanos –defendidos pelos Estados Unidos da América-, a Coreia do Norte sempre procurou o programa e, posteriormente, o conflito nuclear como forma de poder e de afirmação no Sistema Internacional.

Há muitos anos que o Mundo está em modo-alerta face aos últimos passos de Kim, principalmente quando este subiu ao poder demonstrando possuir uma política bem mais severa face ao seu antecessor, o seu pai. Nesta política mais severa podemos constatar a corrida ao armamento, refrescando a memória da Guerra Fria com Reagan e Gorbatchev; a corrida à produção de energia nuclear como arma destrutiva face a qualquer inimigo; o fim da liberdade jornalística –não permitindo qualquer ambiguidade e/ou ceticismo em relação ao Estado- e; uma economia altamente centralizada e planeada na sua maioria, pelo Estado.

Conquanto, apesar da força do hábito, parece que a Coreia do Norte tem insistido nos seus ataques-surpresa provocando instabilidade nas poucas relações diplomáticas externas que possui e, até mesmo, no resto do Mundo dado o perigo que representa. Tal se tem feito ver com o recurso aos testes de armas nucleares que haviam sido suspensos desde 2017, assim como o lançamento de mísseis balísticos intercontinentais de longo alcance. Exemplos significativos desses ataques-surpresa por parte da nação norte-coreana foram a projeção de dois mísseis para o Mar do Japão, assim como o conjunto de lançamentos que Pyongyang (maior cidade da Coreia do Norte) tem feito nos últimos dias.

Esta posição bélica de Kim Jong-Un tem sido alvo de protagonismo por parte de Governos e dos próprios media, preocupados com a segurança e a paz internacionais defendidas pelo Ocidente e, igualmente, pela Organização das Nações Unidas (ONU). Também a última, juntamente com a União Europeia (EU), revela a sua apreensão com os últimos acontecimentos norte-coreanos acreditando que se trata de uma pré tensão nuclear de caráter mundial e, posteriormente, de destruição mútua dada a natureza nuclear. Como já era de esperar, à custa do doloroso passado Histórico com a Coreia do Norte, a Coreia do Sul demonstrou-se em alerta, tal como em todas as outras posições militares da Coreia do Norte, pois, qualquer uma, pode ser o começo da tentativa de uma reunificação coreana com sede na Coreia do Norte e com todos os seus pressupostos e prerrogativas.

Todos apelam ao fim do uso de mísseis balísticos por violar as resoluções do Conselho de Segurança da ONU, ao fim da negação dos direitos humanos que se faz sentir na Coreia do Norte, à rejeição das liberdades e garantias declarada por Kim Jong-Un, no entanto, a Coreia do Norte, presidirá a Conferência de Desarmamento da ONU a maio deste ano através de um fórum de uma negociação multilateral –algo bastante típico- sobre o tema em questão. No mínimo, suspeito, até mesmo enigmático. Ou irónico, visto que Kim Jong-Un é o primeiro a censurar a falta de imparcialidade e objetividade do Conselho de Segurança e, consequentemente, da ONU, dada a leveza com que leva os exercícios militares de grande escala dos Estados Unidos da América.

Apesar do gosto de Kim Jong-Un por armas nucleares de grande calibre, parece-me, e a grande parte da Comunidade Internacional, que o timing foi oportuno e congruente. Se realizarmos uma linha do tempo, depressa ligamos duas ocasiões importantíssimas para a Coreia do Norte que a poderão, eventualmente, condicionar de alguma forma ou ajudar a condicionar uma outra potência de forma estratégica.

Estão a ocorrer, em Pequim, os Jogos Olímpicos de Inverno- um grande evento, de importante valor para a China até mesmo via política- (visto na linha do tempo: poucas semanas depois do leque de lançamentos elaborados). Ora, como é de prever, a China não ficará satisfeita se, durante a sua Olimpíada, houvessem testes de mísseis na vizinhança. É bastante presumível que tal se trate de uma manobra de Kim Jong-Un para incomodar a China dada a retoma das negociações a nível económico e comercial entre ambos os países. É de especial relevo relembrar que a Coreia do Norte tem vindo a enfrentar complicações, principalmente económicas, à custa do bloqueio imposto pela mesma para manter a COVID-19 fora do seu território e, por consequência, as relações comerciais com a China, o seu maior aliado económico e político, foram suspensas. Até agora.

A intensificação das atividades bélicas e agressivas por parte da Coreia, também se podem traduzir numa pseudo resposta face ao calendário da vizinha Coreia do Sul, que entrará, em breve, em eleições políticas.

É igualmente possível que Kim Jong-Un tenha utilizado o pretexto da testagem do armamento para formular uma espécie de resposta de hard-power à Administração de Joe Biden –Presidente dos Estados Unidos da América-, que desde cedo se demonstrou incapaz e desinteressada em estabelecer qualquer tipo de negociação, a não ser a da paz mundial junto das Organizações Internacionais.

Por fim, uma última perspetiva que, de certa forma, se pode completar com alguma anterior, afirma que Kim Jong-Un aproveitou a conjuntura atual de tensão entre a Ucrânia e a Rússia para não dispor de qualquer atenção por parte da Comunidade Internacional e, assim, cumprir os seus intentos militares.

Assim, estima-se que o fortalecimento das atividades bélicas tenha coincidido com um momento delicado tanto da Política Internacional, como da Geopolítica Mundial, ficando no ar a probabilidade de tal ter sido intencional, ou não.

Graças à paralisia das relações norte-americanas e norte-coreanas e à vontade da imposição de sanções por parte de Organizações Internacionais e até mesmo “meros” Estados, podemos contar, com uma Coreia do Norte ainda mais agressiva e de caráter inflexível nos próximos tempos. É extremamente improvável que se aproxime um fim ao lançamento e/ou testagem de mísseis balísticos.

A Coreia do Norte, desde a sua formação, mas, principalmente, desde a Guerra da Coreia, sempre necessitou de dominar e abarcar o armamento nuclear como forma de proteção face a eventuais tentativas de algum Estado e, até mesmo, para demonstrar um certo poderio naquela que é a nova Ordem Internacional.