Assembleia da República

Eutanásia e a minha sanidade mental

Disclaimer – Este artigo é de opinião, portanto discordar dele é natural e de salutar, assim como o reverso. No entanto, isso não significa que tu estejas certo.

Neste tema, podemos começar de muitas formas diferentes. Por maiores que nos pareçam os obstáculos, quer à compreensão quer ao entendimento deste fenómeno. A eutanásia é o chapéu, onde cabem diferentes formas de abreviar ou por termo à vida de alguém, que sofre de uma doença prolongada e incurável. Temos a eutanásia ativa, a passiva, a ortotanásia e a distanásia.

Vou procurar explicar brevemente cada uma delas:

  • Eutanásia Ativa – Acontece quando se apela a recursos que podem findar com a vida do doente (injeção letal, medicamentos em dose excessiva, etc.)

  • Eutanásia Passiva – A morte do doente ocorre por falta de recursos necessários para manutenção das suas funções vitais (falta de água, alimentos, fármacos ou cuidados médicos)

  • Ortotanásia – Consiste no ato de parar com atividades ou tratamentos que prolongam a vida de forma artificial. Isto acontece em casos que uma pessoa se encontra em coma ou estado vegetativo, não havendo tendência para que recupere. É uma forma de eutanásia passiva. A ortotanásia é contemplada por muitos como uma morte que ocorre de forma mais natural.

  • Distanásia - é vista como o contrário da eutanásia, e remete para o ato de prolongar ao máximo a vida de uma pessoa que tem uma doença incurável. Frequentemente a distanásia implica numa morte lenta e sofrida.

Explicadas que estão os diferentes tipos de eutanásia, se assim se pode dizer, vamos diretos a um dos busílis desta questão, que é: porque o fazem?

Podíamos contar aqui numerosos capítulos, de outras tantas histórias, mas na base está uma velha questão que tem varrido a Europa e todos quantos, aprovaram, de diferentes formas, este procedimento.

A questão é saber qual é o limite de cada um? Qual é o limiar entre estar vivo e sobreviver apenas? Não pretendo dar a resposta a estas perguntas. No entanto, sirvo-me da minha prosa, para vos poder oferecer uma resposta.

Sendo favorável à livre escolha da forma como cada um vive, não me oponho a uma escolha informada e vigiada reiterada e prolongada no tempo.

Se não vejamos, a informação é fundamental, em qualquer escolha ou decisão que façamos, pois a mesma situação com diferentes níveis de informação, pode gerar escolhas opostas, ou subtilmente diferentes. Mas as subtilezas aqui, neste assunto não são de descartar.

Esta decisão, não deve, em meu entender, ser tomada sem o devido acompanhamento médico especializado. Uma equipa multidisciplinar que faz toda a analise, fisiológica e mental das condições em que a pessoa se encontra. Isto durante um período de tempo alargado da vida da mesma.

A referida pessoa, consciente de que este é o ultimo ato que poderá tomar, pesadas que foram todas as consequências, quer da decisão em questão quer da ausência dela, deve reiterar o pedido. Não como uma forma de dúvida, perante o indivíduo, mas antes para que se não obedeça a estados de alma, a conjunturas emocionais mas antes que seja, o que é, uma decisão estrutural da vida de alguém. Com o inevitável impacto nas vidas de todos quantos estão na sua vida.

A dor e o sofrimento, tendem a andar de mãos dadas e a ser demasiado abstratos quando não nos afetam diretamente. Um sofrimento prolongado de algo incurável parece-me um conceito absurdo para se poder viver condignamente dentro dele. Cabem, na minha cabeça, diferentes noções e tolerância dos mesmos. No entanto, quando alguém decide, - com base no sistema já referido – que já chega, para mim não existe teoria que supere a realidade dos factos.

Sou levado a concluir que, sem desprimor para outras opiniões e baseado nas salvaguardas que descrevi, é melhor uma pessoa viver até ao limite da sua possibilidade, com o maior conforto que consiga, sempre e quando o deseje. Porque estar vivo não é uma obrigação é uma bênção que devemos respeitar e fazer por aproveitar tanto quanto nos for possível. Assim me declaro, paradoxalmente, a favor da vida e da eutanásia, dois dos caminhos paralelos que existem, aqui no meu mundo.

 

 

 

Este artigo é de opinião e por isto suas ideias reflectem a visão do autor e não de todos os membros do Polititank.

This article was updated on dezembro 13, 2021

Emanuel Almeirante

Emanuel Almeirante é ator, podcaster, músico e massagista. A todas estas (e mais algumas) profissões, acumula a de autor de artigos de opinião, com o tom crítico mas sempre bem-disposto, a que habituou os seus amigos, bem como os ouvintes do Polititank.