"Nuclear Power Plant, Cattenom, France" por haralder is licensed under CC BY-NC-SA 2.0.

Energia Nuclear Sustentável?

Na reta final da COP26, Portugal aderiu à Aliança BOGA, “Behind Oil and Gas Alliance” comprometendo-se a acabar com a exploração de gás natural e petróleo. Apesar da enorme ambição demonstrada pelos países fundadores, neste grupo apenas se incluí um com produção significativa, a Dinamarca, tendo também assinado uma declaração onde rejeitam a energia nuclear como fonte energética sustentável.

Com o fim da exploração de combustíveis petrolíferos, e do consequente encerramento das centrais elétricas que os usam, será necessário encontrar outras formas de produção de eletricidade de maneira a compensar esta perda de produção, e com o consumo de eletricidade a aumentar à taxa média de 2% ao ano, torna-se crucial encontrar alternativas de produção de eletricidade limpas de modo a reduzir a emissão de gases de efeito estufa (GEE) e assim ir de encontro às metas traçadas no Acordo de Paris. Anualmente são emitidas 15 mil milhões de toneladas de GEE pelo setor da produção de eletricidade, correspondente a cerca de 30% das emissões globais.

Fonte: Ourworldindata.org

Atualmente, 10,4% da eletricidade produzida mundialmente tem origem nuclear, 26,3% a partir de renováveis e 63,3% é obtida através da queima de combustíveis fósseis conforme o gráfico seguinte:

Fonte: Ourworldindata.org

A utilização de reatores nucleares na indústria da produção de eletricidade tem sido debate constante nos últimos anos, tendo sido despoletado pelo acidente nuclear de Three Mile Island em 1979 e agravado pelo acidente de Chernobil em 1986. Em causa estão as consequências para a saúde e ambiente. Para além de levar ao aquecimento dos cursos de água utilizados para o arrefecimento dos reatores e consequente destruição ou modificação da fauna e flora aquática, existe uma maior preocupação com as consequências em caso de acidente e no processamento e armazenamento de resíduos radioativos depois de esgotada a sua capacidade de produção elétrica.

Apesar de existirem danos colaterais para o ambiente e graves consequências em caso de vazamento radioativo, é necessário avaliar o retorno que podemos obter com a utilização desta fonte de energia em relação ao seu risco e compará-la com as outras existentes, tendo também em conta que a tecnologia tem evoluído muito desde o século XX e atualmente, é muito mais seguro o manuseamento de matérias radioativas e operar centrais nucleares. Ainda que possam ocorrer acidentes como o caso de Fukushima em 2011, este provocado por um tsunami e não por erro humano, a energia nuclear caracteriza-se como sendo muito barata.

A transição energética para fontes mais sustentáveis, apesar de ser um objetivo para a generalidade das nações, a verdade é que será extremamente difícil implementá-la de forma célere devido não só à logística desta transição, mas também à incapacidade de construir infraestruturas que suportem as energias limpas (barragens, eólicas, painéis solares) nos prazos estabelecidos.

Conforme os dois gráficos seguintes, é possível identificar um padrão entre a utilização de combustíveis fósseis como fonte elétrica e uma maior emissão de carbono em vários países europeus, não sendo possível detetar grandes diferenças entre a utilização de energias limpas e a nuclear neste aspeto. Assim, a melhor forma de reduzir o impacte ambiental a curto prazo será, não iniciar uma corrida descontrolada às energias renováveis, mas sim reduzir a utilização de eletricidade a fim de possibilitar o encerramento das centrais poluidoras de forma ponderada em simultâneo com a construção de novas fontes limpas, impedindo que ocorra um défice energético que provoque apagões aleatórios, perdendo-se assim a fiabilidade da rede.

Fonte: Ourworldindata.org
Fonte: Ourworldindata.org

Apesar de existir o entrave logístico, será possível alcançar as metas a longo prazo e atingir a utopia de 100% da eletricidade, ou até quem sabe, de toda a energia utilizada no dia-a-dia pela sociedade, ser obtida a partir de energias limpas e conseguir manter a fiabilidade da rede energética como a conhecemos, em países considerados desenvolvidos. A utilização da palavra utopia é propositada uma vez que, uma rede deste género, seria constantemente alvo de apagões por estar diretamente dependente das condições meteorológicas, um problema do qual a nuclear não sofre, podendo trabalhar constantemente à sua taxa máxima sem a influência de fatores externos. Em épocas de verão, abunda a energia solar e a eólica e hídrica diminuem sobe pena de esta última afetar negativamente outros setores de atividade com secas, uma vez que a sua construção tem um duplo objetivo. Em época de inverno, abundam a hídrica e eólica e diminui a solar. A energia nuclear teria o objetivo de compensar as quebras de produção espectáveis por parte das energias renováveis, funcionando como fonte de produção secundária.

Quanto à questão que faz o título deste artigo de opinião, a energia nuclear é a única que permite que uma rede 100% renovável funcione normalmente e seja efetivamente sustentável por ser a única fonte de energia com baixa emissão de carbono que permite compensar a quebra de produção das outras renováveis de forma eficaz, impedindo a ocorrência dos desagradáveis apagões. Por esta razão, considero que é um erro a assinatura, por parte de vários países onde se inclui Portugal, da declaração onde rejeitam a energia nuclear como sustentável, colocando de parte a sua utilização como fonte elétrica e energética no futuro.

A nuclear acarreta riscos, porém, acredito que a contínua utilização de combustíveis fósseis enquanto não se completa a transição energética para apenas renováveis terá mais consequências negativas do que alguma vez a nuclear poderá causar, além de que a sua utilização apressaria a transição, diminuindo o total de CO2e emitidos para a atmosfera, levando a que exista uma menor concentração de gases poluentes a curto e médio prazo. Atingindo o equilíbrio entre a emissão e a diluição dos GEE por parte da Natureza, estagnaríamos o aumento da temperatura média global e quiçá, iniciar-se-ia o seu decréscimo até aos valores considerados normais para a atualidade.

 

 

 

Este artigo é de opinião e por isto suas ideias reflectem a visão do autor e não de todos os membros do Polititank.