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Eleições na Argentina e o novo Bloco Libertário

Depois de ter coberto o fenómeno Javier Milei no mês passado, é natural que volte para a sua conclusão eleitoral, que foi muito melhor do que os próprios eleitores esperavam no alto da sua confiança.

Primeiro um pequeno resumo do que se passou nas legislativas da Argentina (PASO) neste Domingo dia 14.

Mapa Eleitoral da Argentina 2019 vs 2021
Frente de Todos (Azul Claro)/Juntos por el Cambio (Amarelo) Fonte: Instagram (click )

As forças de poder dentro da Câmara de Deputados não mudaram substancialmente. As forças principais – Frente de Todos (Kirchnerismo) e Juntos por el Cambio (Centro/Centro Direita) – ficaram numa situação de paridade virtual, com nenhum deles a atingir uma maioria. Mas o peronismo de facto caiu significativamente.

A nível nacional o Juntos teve 41,89%, a ser particularmente forte no centro e norte da Argentina, derrotando o kirchnerismo.

O Frente saiu por baixo com 33,08%, mas ainda conseguindo impulsionar-se nas suas fortalezas como Santa Cruz. Só foi forte em 8 Provincias no Norte: San Juan, La Rioja, Catamarca, Tucuman, Santiago del Estero, Chaco, Formosa, Salta e no sul, Tierra del Fuego.

Em Buenos Aires, a capital onde o kirchnerismo sempre esteve entrincheirado, a oposição ganhou. Embora Diego Santilli do Juntos tenha 39,81%, Victoria Paz do Frente teve 38,53%, criando um “empate técnico”. O libertário José Espert do Avanza Libertad teve 7,50%.

Mas como dito num artigo anterior, a abstenção tem abalado as configurações políticas de vários países, e na Argentina, 66,21% dos eleitores votaram nas primárias, a participação mais baixa desde 2011.

Assim veio a grande surpresa da noite: um novo bloco surge na legislatura Argentina, liderado por Javier Milei do La Libertad Avanza e José Luis Espert do Avanza Libertad, que vão sentar cinco legisladores no total. La Libertad Avanza e Avanza Libertad são técnicamente a mesma coisa, a diferença é que Avanza Libertad representa a Província de Buenos Aires, e o La Libertad Avanza representa só a cidade de Buenos Aires. Javier Milei obteve 17,03% dos votos e 3 assentos na Câmara Baixa (+ os dois do Avanza Libertad, totalizando 5 legisladores libertários).

Euforia no Luna Park
Fonte: Instagram (click)

Segundo o especialista Diego Reynoso, os eleitores foram na maioria homens entre os 18 e 40 anos, de todas as classes sociais. Estando numa posição pró-mercado libertária, apela ao eleitorado farto da intervenção do Estado; a sua posição contra o establishment, ou status quo, ou sistema, apela aqueles fartos da classe política atual.

Não é o primeiro candidato a prometer abraçar o liberalismo, mas liberais acreditam ser o primeiro verdadeiramente a fazê-lo, nas suas palavras, “puro e duro”. O tempo e energia gastos a criticar a casta política – todos aqueles que estão no poder há muito tempo – presentearam-no com a posição de terceira força política na primeira volta em Setembro, em Buenos Aires. Para ele “imposto é roubo”, logo chamar o Estado de “ladrões”. “Inflação é roubo”, e culpa o Banco Central por isso, logo quer acabar com este. Quer prosperidade através da liberdade. Embora Javier seja anti-sistema, alguns liberais preocupam-se com a discrepância entre o que diz e o facto de agora ser um agente político, dentro do sistema.

Entrei novamente em contacto com as minhas fontes na Argentina. O desejo de Lucas, que está em medicina, “sempre foi que os Kirchner tenham menos e menos poder político, e até agora parece que isso se está a tornar mais real”. O kirchnerismo é um aparelho do cockpit do peronismo, e “agora com estas vitórias queria ver mesmo a direita um pouco mais unida e a tomar decisões mais coerentes, porque ainda faltam as presidenciais”

Espera-se que Javier Milei não sabote esta desejada coordenação anti-kirchnerista, porque na última convenção durante os últimos dias de campanha no Parque Lazama em Buenos Aires, onde estiveram mais de 10 mil pessoas, opôs-se à lista centro-direita e não falou em alianças. Previamente tinha expressado interesse, mas para manter a identidade do partido parece ter voltado ao discurso anti-casta.

Ainda esta sexta-feira antes das eleições contactei uma jovem estudante, Fiorella Morales, Universitária em Ciências Económicas, e fã de Milei. Os motivos do seu apoio são materialistas, como a inflação e a crise económica. Acusa o governo de roubar através de “obras públicas” onde gastam 5 milhões de dólares e registam 100 milhões só para repartir algum entre eles. Aí encontrou Milei, “que traz propostas económicas para a moeda argentina ter mais valor.” Também pretende que haja uma mudança na mentalidade dos argentinos. “Cá todos querem sair do país e ele [Javier] convence os eleitores a ficar porque porque vamos ter uma boa qualidade de vida se abraçarmos as ideias da liberdade. Baixar impostos, defender propriedade privada, defender os comerciantes que estão a ser espezinhados pelos impostos.” Tal como todos os partidos mais liberais, os Planos Sociais são seu alvo, acreditando que o governo usa os vulneráveis para os prender com subsídios.

Fiorella estava confiante nos resultados, mas receosa. Desde que começou a votar, votava em branco, mas Milei fez com que voltasse a acreditar finalmente possível cumprir algumas propostas. O próprio Milei repetia nos seus discursos que "não vinha guiar cordeiros, vinha despertar leões”, cortando as correntes do Estado. Após receber os resultados das eleições, Fiorella está uma mulher feliz.

Consegui uma breve entrevista com um polícia que gosta dos planos de Milei para reformar o código penal. Argentina é dos países da América Latina mais seguros, porém roubo e corrupção continuam algo endémicos, e a chamada “casta política”, embora tenham boa legislação, tem a mão muito leve. Alex, o polícia, gostaria que os presos não recebessem promessas de sair por bom comportamento. Por exemplo, um roubo qualificado equivale a 8 anos de prisão, que facilmente são reduzidos a 4 por bom comportamento. Isto mostra que Javier parece ter algumas políticas punitivas típicas de partidos anti-sistema. Alex simplesmente acrescenta que espera “Milei que ponha ordem no Congresso e suas ideias sejam escutadas, interpretadas e cheguem a um consenso entre os pares, caso contrário a Argentina cai numa crise económica irreversível.”

São estes tipos de políticas mais duras, amores por candidatos como Trump e Bolsonaro, que dão a perspetiva a partidos da oposição e comunicação social mais à esquerda, que Javier Milei é de extrema-direita, como acusou o El Diário del País e El Periódico. Todavia Javier é individualista e liberal economicamente, enquanto a extrema-direita tende a ser protecionista, nativista, tradicionalista, assimilista, e moraliza o Estado e toda a sua identidade nacional histórica, através de uma linhagem [Cas Mudde, parafraseado]. No entanto reconhece-se que nos tempos de hoje partidos antissistema estão configurados popularmente como extrema-direita no mainstream. O antissistema reforça clivagens entre “nós” e “eles”, conceito que vai mudando, por exemplo, nos partidos antissistema Europeus. Não é então surpreendente que jornais como O Globo chamem Javier de “O Bolsonaro Argentino”, CNN e The Guardian noticiem que a “extrema-direita surpreendeu na Argentina”.

Em todo o caso, estando assim qualificada a extrema-direita, considerar Javier Milei como tal ronda o ridículo, embora o mesmo rótulo já tenha sido atirado mesmo em partidos como a Iniciativa Liberal portuguesa.

Milei reconhece que somos filhos de imigrantes e de antepassados que imigraram, mas de um ponto de vista liberal, imigração só se torna um problema caso os novos membros não cooperem com o grupo instalado. Deve haver punições para a delinquência? Sim. Mas será igual para todos. As leis punitivas de Javier não são específicas a imigrantes, mas a todos a que pertencem ao grupo e nele são delinquentes, pois qualquer membro da comunidade é um potencial delinquente. Para ele o comércio livre reforça cooperação social e pacifíca sociedades (filosofia muito partilhada em quadros filosóficos das cryptos, como Bitcoin, onde imaginam uma sociedade onde certos sistemas de cooperação económica libertária eliminam os incentivos que propulsionam conflitos de grande escala e xenofobia [Breedlove]). Isto serve também para desentivar o aproveitamento de programas como o Estado de Bem-Estar Social.

Como também mencionado num artigo prévio, ele não quer saber quem se relaciona com quem na sua intimidade, só questiona o papel do Estado em ter que saber isso. Logo não é tradicionalista. Para não falar do aborto, onde tem uma posição filosófica: liberdade tem como foco o direito à vida, se abortar, retira o direito à vida, logo, o direito a ser livre.

Javier Milei não vai deixar de ser controverso, todavia será possivelmente o candidato libertário mais bem sucedido a disseminar as suas ideias e a incubá-las numa população com energia, força, e desejo para a mudança. Lucas quer menos peronismo. Alex quer mais segurança. Fiorella quer que Milei não esqueça e sirva o povo. Não obstante, existe ainda outra característica que Milei e Libertad têm com partidos antissistema: oferecem soluções fáceis para problemas complexos, e a sua narrativa agressiva pode não funcionar com os seus pares na Câmara, cujo modus operandi é negociar.

Pelo menos já fez parte de uma missão histórica: retirou a maioria peronista que perdurava desde 1993. Mas ainda existem os problemas criados pela pandemia, o acordo com o FMI, a inflação que cresce, os mais de 40% de argentinos pobres, desemprego, uma dívida para pagar e preços controlados pelo governo em mais de 1400 produtos para impedir que a inflação piore e a moeda desvalorize.

Daqui a dois anos são as Presidenciais, e até lá será um período difícil para os Argentinos, que terão de segurar o país com uma câmara sem maiorias, novas ideias não testadas, novas reconfigurações e imensas promessas.

 

 

 

 
Outras Referências:

Javier Milei y la inmigración, Intratables- 27/01/17 [Online]. [Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=xfNnAKnHxGo]

Javier Milei expresó su postura sobre el aborto legal y criticó el anuncio de Alberto Fernández [Online] [Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=7wus7IVmuWo]

Javier Milei en MMD: "El reperfilamiento de la deuda es una mentira" [Online] [Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=vxoW8BBXR7g]

Mudde, Cas. 2020. O Regresso da Ultradireita, da Direita Radical à Direita Extremista. 1ª Edição [Tradução Editorial Presença por Teresa Toldy e Marian Toldy].

 

 

This article was updated on janeiro 11, 2022

Igor Veloso

Igor Veloso é de Águeda, 30 anos de idade, e tornou-se sócio do Polititank em Outubro 2021. Autor do ensaio “Cidadania e Desenvolvimento: Explorando a Existência da Disciplina“, faz parte da equipa de design e edição do Polititank. Deseja que os portugueses tenham mais participação cívica, e estejam mais informados sobre as políticas do país.