Eleições Decisivas em França

Não só os portugueses regressarão às urnas em 2022. Também os franceses serão chamados a escolher qual o rumo que a França levará nos próximos anos. Contudo, apesar da crise política vivenciada atualmente em Portugal, creio que o processo eleitoral em França será um pouco mais complexo dada a sua diversidade e polarização política.

É importante frisar, antes de tudo, que Emmanuel Macron, Presidente da França e fundador do Partido Político social-liberal La République En Marche!, cujos pressupostos assentam, essencialmente, no liberalismo social e no europeísmo, tem vindo a ser acusado de inércia perante os múltiplos “fantasmas” que o assombraram ao longo do seu mandato - o combate ao terrorismo, o esmorecimento das relações francesas-britânicas em virtude do Brexit, a luta contra o desemprego, a gestão do fluxo migratório, a insegurança crescente e o aumento explosivo da extrema-direita francesa com Marine Le Pen são temas cada vez mais em voga em França..

Todavia, tudo tem o seu tempo, e o mandato de Macron também.

Em abril de 2022, França terá novas eleições presidenciais. Ora, os candidatos mais prováveis de provocar uma possante oposição a Macron, serão, em princípio: Marine Le Pen, Presidente do Reagrupamento Nacional (Front National), partido político de extrema-direita, de carisma nacionalista e conservador; Jean-Luc Mélenchon, atual líder do partido político França Insubmissa (France Insoumise), cujo espetro político se enquadra entre a esquerda e a extrema-esquerda; Anne Hidalgo, pertencente ao Partido Socialista Francês (Parti Socialiste); Xavier Bertrand, ex-membro do partido Os Republicanos (Les Républicains), juntamente com Nicholas Sarkozy e Jacques Chirac e, atualmente, candidato independente de direita; entre outros relevantes.

Outras Sondagens: The Guardian

Apesar de todos fortalecerem a relutância a Macron, contribuírem para uma maior polarização política e para o enriquecimento do espírito democrático, crê-se vivamente que o maior opositor de Macron nestas próximas eleições não será Marine Le Pen, mas o jornalista Éric Zemmour.

Acontece que a candidatura de Zemmour apenas foi oficializada no dia 30 de novembro através de uma publicação no canal de Youtube do próprio. Até este anúncio, nada passava de boatos e de conspirações que, certamente, colocaram profundo receio ao Presidente Francês, dado o seu exponencial aumento de apoiantes e seguidores.

Zemmour, também intitulado de “Trump Francês” pelos críticos e pelos media sensacionalistas, tem conseguido roubar as atenções e, ao mesmo tempo, ofuscar os restantes candidatos. Ao lado de Zemmour, Marine Le Pen é vista como moderada e pertencente a uma direita-soft, algo que os franceses não perdoarão com certeza.

O candidato de extrema-direita tem sido bombardeado por múltiplos convites para debates políticos, entrevistas, congressos, e todo o tipo de atividade coletiva a fim de promover os seus ideais atípicos, mas, simultaneamente, comuns ao dia-a-dia da população francesa.

Entre as diversas questões referidas e defendidas por Zemmour, as mais polémicas (e que servem de alicerce à sua candidatura) são: as críticas à imigração excessiva, principalmente proveniente de países africanos e árabes, pois coloca em risco a noção de “Pátria”, de “Família”, do tradicionalismo e da própria União Europeia; a fuga necessária dos políticos franceses e da imprensa francesa ao “politicamente correto” tal como Donald Trump defendera ao longo do seu mandato; a insatisfação perante as políticas restritivas de Macron para fazer face à conjuntura pandémica; a insegurança constante vivida pelos franceses, aquando do aumento dos fluxos migratórios de estrangeiros vindos de países árabes. Este último tópico é, certamente, o pilar da candidatura de Zemmour: a luta contra o liberalismo social que se faz sentir face à entrada sucessiva de estrangeiros.

As estatísticas não mentem e é incontestável que a violência e a insegurança em França têm subido a um ritmo alarmante, servindo de bengala ao aparecimento deste tipo de filosofias e doutrinas nacionalistas e nativistas.

Muitos consideram ser uma das consequências nocivas do multiculturalismo. Outros culpam a islamização do Ocidente. Há quem aponte o dedo à ineficácia da polícia e das suas ramificações e estruturas judiciárias. Também há quem defenda que tudo se deve à entrada massiva de estrangeiros árabes e africanos, assim como outros muçulmanos em Diáspora, com ideais revolucionários e contrários aos da democracia. Há, ainda, quem considere a insegurança francesa uma espécie de junção de todos os cenários acima enumerados.

Desta forma, optando por uma visão de análise, conseguimos constatar que o irrefutável adepto de Charles de Gaulle, Líder e Grande General da França na Segunda Guerra Mundial e, ainda, principal político do pós-guerra até ao fim dos anos 60, e de Napoleão Bonaparte, assim como de outras figuras políticas nacionalistas francesas, apresenta como seu objetivo primordial a Restauração da Antiga França Nacionalista e Lutadora pelo seu Povo, ao invés da atual França – a França invadida por estranhos, onde nem os próprios franceses se reconhecessem e se sentem em casa.

Assim, facilmente conseguimos alcançar uma das outras bandeiras da candidatura de Zemmour: a saída da França da União Europeia. Apesar de ainda não o ter dito oficialmente, não descartou tal opção, reforçando tal boato com o seu apoio ao Brexit. Ora, não é preciso ser-se economista para nos apercebermos que isto provocaria um abalo gigantesco na economia europeia e na economia mundial, dado o peso francês na economia europeia e mundial, respetivamente.

Deste modo, analisando as mais recentes sondagens, não existem dúvidas quanto ao aumento do espaço que a direita radical, se a podemos assim designar, ocupa na esfera pública. As sondagens, apontam para uma vitória de Emmanuel Macron. Todavia, a possibilidade de Zemmour chegar perto daquele que será o número da vitória de Macron é enormíssima. Le Pen, por sua vez, tem sido extremamente esquecida, encontrando-se atrás de Zemmour, algo que certamente não a deixa contente em virtude da sua quase vitória frente a Macron em 2017.

As justificações mais comuns dos franceses que votam, não só na direita extremista, como também na direita radical, ou, ainda, na direita-soft e conservadora de Le Pen são, como já fora desenvolvido detalhadamente, a insegurança que acompanha os franceses, o declínio político, cultural, social e, acima de tudo, ideológico daquela que foi a Nação pioneira do Liberalismo e de todos os ideias subjacentes ao mesmo.

Faltam sensivelmente 5 meses para as eleições francesas. As interrogações são excedentes. O que é certo, é, que se a extrema-direita, seja a de Marine Le Pen ou a de Éric Zemmour, ganhar as eleições na 2ª volta, podemos esquecer grande parte das práticas progressistas a que estávamos habituados a ver em França. A começar com o fim do europeísmo e um possível isolacionismo francês, um dos maiores medos de, se nos recordarmos bem, François Hollande, ex-Presidente Francês.