Assembleia da República

O que o eleitorado quer?

Este artigo de opinião foi publicado na edição de 25 de Fevereiro de 2022 do semanário Jornal Diabo com o título "O que o eleitorado quer".

 

A equipa do investigador Pedro Magalhães lançou recentemente um estudo sobre as bases sociais das legislativas de 2022, usando entrevistas à boca das urnas realizada pela Pitagórica. Esta empresa de sondagens tem sido controversa por apresentar resultadas pouco confiáveis, mas este ano foi a que teve mais perto do resultado final, com um erro médio por partido de 1,52%, fazendo melhor que a Universidade Católica que errou por 1,7%.

Não mediram apenas o voto, mas também o sexo, a idade e instrução de todos os inquiridos (N = 38,943). Admite-se que existem mais variáveis que influenciam as tendências de voto das pessoas, e até podem estar escondidas algures no estudo, mas as que se conhecem não são aleatórias.

Não gosto de me repetir, contudo quando num artigo anterior frisei que a direita teria de se adaptar à demografia mais velha, tinha em mente um estudo do IPRI que já apontava diferenças no eleitorado português. Segundo os dados da Pitagórica as mulheres tendem a votar mais à esquerda; e os jovens mais à direita, porém não são suficientes para ultrapassar a enorme massa muito mais velha – masculina, feminina, e geralmente menos instruída – que vota PS. Os partidos mais novos (Chega, PAN, Livre e IL) obtiveram uma afluência desproporcionalmente jovem, com a IL em imensa vantagem. Já se sabe que os adultos tendem a votar mais e de forma estável, e que os filhos tendem a votar diferente dos pais – mesmo que seja do mesmo espetro, o partido tende a ser diferente, tal como os tempos. Isto é muito positivo para quem quer ver mudanças, que na realidade, na prática, são graduais mas claras. Os jovens claramente querem mudança!

Conquanto são também aqueles com mais instrução que votam IL, PSD, BE, Livre e PAN. Só o Chega tem dificuldade em atrair os mais instruídos independentemente da idade, atraindo principalmente homens instruídos até ao ensino secundário (em 2021 houve cerca de 66,977 rapazes inscritos nos exames nacionais de acesso ao ensino superior, contra 84,886 raparigas). À priori quem adquire mais instrução vive melhor e tem mais necessidades adquiridas, certamente as básicas, logo pode preocupar-se com assuntos como o ambiente e investimentos, muito melhor do que alguém que espera apoio e acredita ser essa a função do Estado. É legitimo querer serviços de saúde, reforma e apoio social que permitam aliviar o embate que um indivíduo sofre quando desce de estatuto - isto é fica desempregado, divorciado ou incapacitado por exemplo - seja devido a desgraça ou erro próprio. Mas a verdade é que já vamos em 6 anos de PS, os serviços do Estado aumentam de funcionários ao mesmo tempo que perdem mais para a reforma, e não parece haver sinais de melhoria de qualidade dos serviços. Não só isto, como o sector privado é visto depreciativamente com as lentes dogmáticas dos ministros socialistas.

Ora a geração mais nova quer mudar para a direita e vai ser recebida com um rumo a 10 anos de socialismo. Devemos olhar para estes dados e para estes estudos com juízo sério (com as devidas reservas logo mencionadas) para que aprendamos o que o eleitorado quer, e tomar a oportunidade de tornar os partidos de direita mais pedagógicos, permitindo absorver e reter o conhecimento que convença as outras faixas etárias a votar diferente.

 

Este artigo é de opinião e por isto suas ideias refletem a visão do autor e não de todos os membros do Polititank.

This article was updated on abril 6, 2022

Igor Veloso

Igor Veloso é de Águeda, 30 anos de idade, e tornou-se sócio do Polititank em Outubro 2021. Autor do ensaio “Cidadania e Desenvolvimento: Explorando a Existência da Disciplina“, faz parte da equipa de design e edição do Polititank. Deseja que os portugueses tenham mais participação cívica, e estejam mais informados sobre as políticas do país.