Do Instagram CDS-PP

Da Renault 4L para a liderança do CDS-PP 

A história do 29°Congresso dos Centristas teve lugar na cidade de Guimarães, mais concretamente no interior do Pavilhão Multiusos da cidade berço da Nação.

João Nuno Lacerda Teixeira de Melo, ou simplesmente, Nuno Melo foi aclamado líder do CDS-PP, após a moção “Tempo de Construir" da qual foi primeiro subscritor ter acolhido 854 dos votos de um total de 1102 congressistas que votaram nas quatro moções levadas a Congresso.

Este congresso ganhava contornos muito peculiares, tendo em conta o facto do partido ter perdido representação parlamentar nas últimas eleições legislativas. Pela primeira vez na história da democracia, um dos partidos fundadores do regime ficaria fora da Assembleia da República.

Os 89.113 votos no CDS-PP nas últimas eleições legislativas não serviram para eleger qualquer deputado. Francisco Rodrigues dos Santos, honra lhe seja feita, tudo fez em prol do partido.

As circunstâncias em que exerceu o mandato não lhe eram favoráveis com o surgimento de dois partidos no espaço não socialista: o CHEGA e a Iniciativa Liberal, a pandemia do Covid-19 e o confinamento obrigatório que limitou a atividade partidária de forma geral, principalmente de um líder que pretendia fazer do seu escritório as ruas de Portugal. Como se todos estes contratempos não ajudassem, sempre foi público e notório de que as relações mantidas com o seu grupo parlamentar nunca foram fáceis. Tudo isto explica o desaire eleitoral na trágica noite de 30 de Janeiro de 2022.

Este congresso era de capital importância para a unidade interna do partido, assim como para o reposicionamento ideológico do mesmo. Como se define politicamente Nuno Melo? Como já teve oportunidade de o dizer um homem “conservador nos costumes, liberal na economia e democrata-cristão nas questões sociais", pretendendo como refere na sua moção “transformar o CDS num partido político de centro-direita do séc. XXI". Isto significa também, tendo em conta a disposição política dos outros partidos no Xadrez parlamentar, posicionar o CDS-PP entre o PSD e o CHEGA.

Numa recente entrevista ao Observador, denota-se alguém realista quando afirma que “eu animo-me com as oportunidades, não me deprimo com as circunstâncias”. Esta é a oportunidade de refundar o partido convocando todos aqueles que queiram emprestar o seu saber prático e/ou teórico desde que para isso reúnam três requisitos: disponibilidade, talento e boa fé (lealdade).

Na moção apresentada em Congresso destaca-se o facto de pretender acabar com as tendências institucionalizadas dentro do partido, no sentido de unir Conservadores, liberais e democratas-cristãos. Só assim fará sentido afirmar o partido como “a grande casa das direitas". O objetivo é unir sem excluir, contrariamente ao dividir para reinar.

Tendo consciência da atual circunstância da austeridade interna em que vive o partido, com a necessidade de cortar custos, vender património e encerrar algumas sedes, há uma necessidade de um esforço da militância para contribuir para o abater a dívida. Deste modo, serão criados dois regimes: cotas obrigatórias para militantes (salvo raras exceções – estudantes, desempregados e a avaliação da situação socioeconómica dos agregados familiares) ou seja, os que queiram eleger e/ou ser eleitos e a “figura" de simpatizantes para independentes que tenham interesse em ajudar o partido, mas não estejam interessados em ocupar qualquer cargo dentro da estrutura do partido.

Vários são os desafios da atual liderança centrista no curto e médio prazo desde as eleições europeias de 2024 cujo objetivo do partido será manter ou aumentar a sua representação de eurodeputados e as eleições legislativas de 2026, devolvendo o partido à Assembleia da República e a eleição de um grupo parlamentar.

Não é por acaso que a moção “Tempo de Construir” começa com uma citação de José Ortega y Gasset “Eu sou eu e as minhas circunstâncias”. Aqui chegados importa corrigir os erros do passado e projetar o CDS-PP no futuro, um CDS renascido das cinzas que pretende contrariar os anseios dos profetas da desgraça, do escárnio e mal dizer, que há muito desejavam o desaparecimento do partido.

No entanto há que deixar o pessimismo que nos tolda a razão ou o otimismo que nos faz cair na ilusão. É necessário ser realista e olhar para o contexto interno e externo do partido, as questões de âmbito nacional e europeu principalmente no que diz respeito às “novas agendas” a par dos “temas clássicos”: questões como a sustentabilidade e o ambiente, Transição Energética, Ecologia digital e Economia Azul"; não permitindo que seja a própria esquerda a reivindicar como seus estes temas nem tão pouco monopolizar o debate como muitas das vezes acontece.

A Moção em que Nuno Melo é o primeiro subscritor não se trata de um programa de governo, mas antes de um conjunto de temáticas intersectoriais com grupos de trabalho em áreas como a agricultura, a defesa nacional, a segurança social, a segurança e proteção Civil, Justiça, Finanças, Saúde, Poder Local e coesão territorial, Cultura, Lusofonia, União Europeia, Regiões Autónomas e Ultraperiféricas, assim como as “novas agendas” anteriormente referidas.

Foto: Instagram CDS-PP

 

Nuno Melo chegou discreto na sua Renault 4L branca que tal como um bom conservador aposta sempre naquilo que nunca falha. Se a 4L nunca o deixou ficar mal só falta que ao CDS-PP não falhe o motor de arranque para um novo ciclo que o país enfrenta – a maioria absoluta do PS e o regresso de um novo CDS-PP renovado, renascido, reconstruído e assim se espera regressado à vida política nacional.

4 de Abril de 2022 adaptando a música de Sérgio Godinho à vida política do CDS-PP, “hoje é o primeiro dia do resto da tua vida”







This article was updated on abril 30, 2022

Vasco Semedo

Vasco Semedo, nascido em Coimbra, 25 anos de idade, mestre em Sociologia. Actualmente encontra-se a desenvolver uma tese de doutoramento no âmbito dos Populismos. Membro e sócio-fundador do "Polititank", interessa-se pela forma como as democracias têm vindo a deteriorar-se e o crescimento de regimes políticos iliberais. Pessoa de fortes convicções políticas e pessoais.