Flickr/Foto por francis mckee

COP26? AINDA NÃO SERÁ DESTA

Neste momento está a decorrer a COP26, a tão esperada e aclamada Conferência/ Convenção das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas em Glasgow, na Escócia. Apesar de ter tido o seu início no dia 31 de outubro, a convenção já teve uma boa dose de polémicas e arrisco-me, até, a afirmar que mais uma onda de indignação está para vir graças ao recente envolvimento de Greta Thunberg, a tão conhecida teenager, ativista ambiental e das alterações climáticas.

Crê-se que a primeira polémica associada à COP26 tenha sido a ausência de figuras políticas cruciais ao sucesso desta Conferência, como é o caso do Presidente Brasileiro Jair Bolsonaro, pelo seu posto, pela inércia do seu Governo quanto a esta causa e ainda pelo contributo do seu país quanto às mudanças climáticas; Vladimir Putin, também pelo seu posto enquanto Presidente Russo, pela sua inação quanto a esta problemática e, ainda, pelas suas últimas declarações quanto à Convenção; Xi Jinping, figura política importantíssima na China, ocupando o cargo de Secretário-Geral do Partido Comunista da China desde 2013; o Papa Francisco; o nosso Primeiro-Ministro António Costa, utilizando a desculpa da conjuntura atual portuguesa, a de crise política, para justificar o seu não-comparecimento (não esquecer que estudos afirmam e comprovam que Portugal será e já é dos países mais afetados pelas alterações climáticas dada a sua posição geográfica) ; entre outras personalidades decisivas e cruciformes na vida e palco políticos.

O Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Joe Biden, foi uma das primeiras figuras a subir ao púlpito na sala da Convenção e não poupou críticas a diversos Chefes de Estado e, inclusive, a Donald Trump, ex-Presidente dos Estados Unidos, atirando que os EUA se encontravam na luta contra as alterações climáticas, algo que não foi possível anteriormente devido à retirada de Trump a diversos acordos bilaterais acerca desta problemática. Biden julgou, sem qualquer pudor, a inércia dos ausentes e, ainda, dos presentes, afirmando que todos os esforços que estão a ocorrer hoje não seriam suficientes para travar a grave crise climática que vivenciamos. Todavia, pouco detalhe apresentou acerca dos planos dos EUA para este mesmo processo de travagem. Ironia das ironias.

Biden utilizou, certamente, frases motivadoras, fortes e marcantes tais como “Este é o desafio das nossas vidas”, entre outras de igual caráter. Contudo, há algo de controverso em todo este bonito e emotivo discurso. Os EUA não apresentam quaisquer práticas de combate às alterações climáticas. Apesar da presença de Biden pesar na balança e significar algo, não é um pouco irónico estar presente e não contribuir para a causa apresentada e exposta? Parece-me que sim.

Não só Biden como também diversos Chefes de Estado de vários países comprometeram-se, assim, a promover a transição energética, como forma de alcançar o net zero (neutralidade carbónica), através do aumento exponencial do consumo de energia proveniente de fontes renováveis, em detrimento da atual enorme dependência face aos combustíveis fósseis.

Também entrou em discussão a redução das emissões de metano, aquele que, segundo os especialistas, é o gás que mais contribui para o aumento do buraco na camada de ozono. Tal diminuição contribuirá enquanto ponto de partida de combate ao aquecimento global, sendo que contribuirá para limitar o aumento da temperatura do Planeta em cerca de 1,5ºC. Já se começa a ver um novo despertar para as questões relacionadas com a sustentabilidade ambiental na medida em que 103 foram os Estados que se comprometeram a cumprir este objetivo.

Foi mencionada, ainda, a problemática da desflorestação, assim como a necessidade impreterível de a combater. Boris Johnson, Primeiro-Ministro Britânico, relembrou ainda que as florestas são os pulmões da Humanidade e são, consequentemente, essenciais à sobrevivência da mesma. Não está errado. Conquanto, algo não está a bater certo. Ora, Jair Bolsonaro, acusado múltiplas vezes nos últimos meses de promover a desflorestação da Amazónia, também se demonstrou recetivo (via escrita, pois esteve ausente) a combater a desflorestação. Não demonstrará isto, mais uma vez, a hipocrisia dos nossos Chefes de Estado? Afirmativo.

Temos um Joe Biden que emprega palavras sonantes e sublinha vezes sem conta a importância do alcance da neutralidade carbónica, mas que adormece em plena Conferência, entretendo os críticos e o mundo inteiro, passando de Presidente dos EUA a vítima de piadas de humor negro.

Temos um Bolsonaro que é considerado um dos responsáveis pela desflorestação da Amazónia, mas que se compromete a combater o seu próprio “veneno”.

Temos, ainda, uma Índia que se recusa a comparecer na Conferência, sendo SÓ o terceiro maior emissor de emissões do planeta, e ainda se nega a colocar uma meta de neutralidade carbónica. Aliás, coloca-a sim, mas para 2070. Uma meta irrealista, portanto.

Temos ainda um António Guterres, Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que critica fortemente a inércia dos líderes globais assim como a nossa própria inércia, enquanto cidadãos, mas, suponho que o jato privado que o levou à Conferência não tenha sido abastecido de neutralidade carbónica ou de caráter ecofriendly. Inacreditável é, ainda, o pedido de Guterres para que os países em desenvolvimento promovam as tão afamadas transições energéticas, quando estes Países não possuem, sequer, água potável e são os mais prejudicados pela modernização e industrialização do Ocidente - os maiores responsáveis pelas alterações climáticas.

A hipocrisia dos nossos representantes é gigantesca, daí muitas vezes as pessoas não darem tempo de antena a este tipo de assuntos e cimeiras: há uma profunda desacreditação; não é por falta de vontade da mudança, ainda para mais quando o assunto é salvar o nosso planeta. Confesso que sou suspeita e um pouco imparcial neste e noutros temas correlacionados, dada a minha sensibilização e íntima relação com o ambiente. Todavia, nunca é demais relembrar que cada pormenor e cada ação amigável pode salvar o nosso planeta ou, sendo mais realista, salvá-lo de uma catástrofe quase iminente.



 

Imagem: Flickr/ Foto por francis mckee sobre licença Attribution 2.0 Generic (CC BY 2.0)