Department of Defense: Ricardo/DOD

 Conflito no Afeganistão

O conflito entre o Afeganistão e os Estados Unidos da América (EUA) é considerado um dos mais importantes, complexos e não consensuais da história. Dada a queda dos media para o sensacionalismo, a história do conflito foi exposta de forma pouco ou nada contextualizada.

Bin Laden, antes de ser conhecido como o responsável pelos ataques de 11 de setembro, fundou a Al Qaeda- cujo primeiro grande exercício de poder foi expulsar as tropas russas do território afegão aquando da Guerra Fria. Para tal, beneficiaram da ajuda dos EUA no fornecimento de armas, e até mesmo na realização de treinos militares. A URSS desejava implantar um regime comunista no Afeganistão e os EUA, por sua vez, almejavam implantar uma democracia parlamentarista.

Bin Laden, que foi um poderoso militar ao serviço da América, acabaria por se tornar no inimigo número 1 da potência hegemónica. Tal, claro está, deveu-se aos atentados de 11 de setembro - feitos sob comando da Al Qaeda durante a governação de W. Bush. Os talibãs, grupo islâmico radical que governava na altura o Afeganistão, decidiram proteger Bin Laden: uma tomada de posição que viria a pesar na decisão dos EUA atacarem o país.

Em resposta ao imprevisível ataque terrorista, Bush operou uma mudança súbita na politica externa norte-americana. Começou a adotar uma visão maniqueísta da politica internacional, o que o levou a basear muitas das suas estratégias em respostas geopolíticas tradicionais: rapidamente começaram a preparar ataques preventivos, não legitimados pela ONU e pela NATO, como foi o caso da Guerra do Afeganistão.

Considerando o Afeganistão um estado pária- e, por isso, propício ao terrorismo- os EUA protagonizaram ofensivas no âmbito da Guerra Global ao Terrorismo (GGT): uma nova estratégia de defesa e segurança que pretendia fazer uso da sua inigualável força. Esta possuía dois grandes intentos: o primeiro, dar uma resposta de hard power militar; o segundo, necessidade de uma politica externa transformadora capaz de impor democracias em Estados não democráticos. O debate na sociedade civil crispava-se, havendo quem argumentasse que, caso os EUA não tivessem perpetrados estes ataques, a guerra poderia ter sido evitada.

Outras nações entraram no conflito ao lado dos EUA. Os talibãs foram rapidamente removidos do poder, porém não desapareceram e a sua influência continuou a crescer durante os anos, angariando indivíduos –até crianças- de diversos países do Médio Oriente.

2009: Obama conquista a Casa Branca e decide continuar com a política ofensiva no Afeganistão. Tal posição era defendida até Bin Laden ser aprisionado. No final desse ano, Obama anunciou um inédito e repentino reforço da presença americana no Afeganistão. Este vir-se-ia a revelar importante para expulsar os talibãs do país; todavia, quando começou a enfraquecer, os talibãs conseguiram reorganizar-se.

2 de maio de 2011: morre Bin Laden. Urge a seguinte questão: porque continuou Obama a Guerra no Afeganistão mesmo após a morte de Bin Laden? No seu primeiro mandato, pensou muito nesta decisão; todavia, uma das suas prioridades era fazer justiça ao 11 de setembro- acrescentando-se a certeza de que, caso retirasse, os talibãs ocupariam o país, retrocedendo-o. Com medo que tal se viesse a concretizar, Obama decide treinar e armar exércitos afegãos.

No seu segundo mandato, a sua principal preocupação externa era apoiar o exército afegão. Porém, o seu governo optou de outra forma: negociações com os talibãs, algo que seria impensável apenas há alguns anos. O ex-presidente apresentou, assim, um plano para reduzir significativamente a presença militar e oficializou a retirada total em 2016, no final da sua presidência.

Em 2017, quando Trump sobe ao poder, milhares de soldados americanos ainda se encontravam em Cabul. Com a guerra em mãos, mantém a posição do seu antecessor. Apesar de ser apelidado nacionalista, recusou definir uma data de evacuação – o que lhe valeu críticas por não estar a apoiar os tropas americanos. Procurou, assim, através de negociações diretas com os talibãs, um acordo que permitisse os americanos saírem ilesos da Guerra. Perante tal assignment, em 2020, os talibãs começaram novamente a controlar mais territórios e a semear o terror.

Joe Biden, atual Presidente dos EUA, vice-presidente na era Obama, estava convencido de que o seu Presidente estava a cometer um erro ao perpetuar a presença americana. A Al-Qaeda tivera o seu fim, logo, já não era um problema. É óbvio que os seus antecessores possuíam a mesma perceção, mas nenhum pretendia que a derrota ficasse colada ao seu nome. Assumiu-se, assim, uma perspetiva preventiva e questionou-se se não se estaria a evitar o inevitável, dado que mesmo que os EUA retirassem as tropas daqui a uma década, o resultado seria o mesmo: invasão talibã.

Um recente discurso de Biden deixou bem saliente que o conflito afegão era, e sempre foi, um conflito interno: uma guerra civil entre afegãos/talibãs e, como tal, um problema externo aos EUA. O desastre que podemos presenciar é considerado, por muitos analistas, um fracasso. Note-se, todavia, que Biden, tão-só, colocou em prática aquilo que já havia sido acordado.

Consequências: o exército afegão -equipado e treinado pelos EUA durante quase duas décadas- não conseguiu fazer frente ao movimento dos talibãs; os direitos das mulheres retrocederam até 2001, e valores como a liberdade e os direitos humanos foram colocados em causa.

Esta situação tem e terá repercussões em todo o mundo e criar-se-á uma nova crise de refugiados na Europa, como já é notório.

Aqui chegados, constato que Biden tem vindo a decrescer e a desiludir, fatidicamente, o ocidente. Dadas serem óbvias as consequências mortíferas de uma retirada tão célere, a sua administração, que se encontra no poder há sensivelmente sete meses, deveria ter colocado uma maior atenção nesta pasta de política externa.

Antes de se falar num fim de uma Era, note-se que treze militares norte-americanos foram mortos nas imediações do aeroporto de Cabul. Talvez isto seja sinal de que a guerra não esteja assim tão perto de ter um fim; talvez, citando Hobbes, a guerra seja “natural” à existência humana. Por estas razões, e sobretudo pela última, devemos estar atentos a Cabul.