Assembleia da República

General Ancap Argentino

 

 

Based” é como um argentino descreve-me o candidato libertário Javier Milei.

Cosplayer e auto-proclamado professor de sexo tântrico, o General Ancap, personagem criada por ele, tem boa chance de se tornar o primeiro libertário na legislatura da Argentina. Na primeira ronda das eleições em Setembro, conseguiu cerca de 13% dos votos no meio de um eleitorado que cada vez menos vai às urnas, um ambiente perfeito para candidaturas pequenas cuja vantagem está na novidade e irreverência. Se repetir na segunda volta, conseguirá dois assentos em Buenos Aires.

O jovem com quem falei está na faixa etária que mais se atrai pelo libertarianismo na Argentina, algo similar ao que se vê em Portugal e EUA. Partidos libertários parecem atrair, em média, os eleitores mais jovens quando comparados com outros partidos, embora também representem uma fatia muito menor de todo o eleitorado.

“É difícil mudar o clássico pensamento de esquerda/direita e o peronismo que há aqui”, confessa ele. Argentina sofre de um síndrome keynesiano que também afeta o nosso Portugal, onde o Estado está cada vez mais paternalista e continua a consolidar poder com a adoção de políticas progressistas: em 2020 legalizou o aborto nas primeiras 14 semanas de gestação, alegadamente com 40% da população a favor, e em 2021 os bilhetes de identidade permitem a identificação de género como “não-binária”, adotando linguagem “neutra”. Com isto continua-se a agradar à esquerda enquanto a economia permanece extremamente debilitada.

Milei não está para isto. Acha a linguagem neutra – lenguaje inclusivo – uma enorme parvoíce e considera haver coisas mais importantes para resolver. Quer reduzir regulações, baixar impostos, eliminar o banco central, e posiciona-se fortemente pró-vida, argumentando que não há liberdade se não se nasce. Ainda é a favor do casamento por casais de mesmo sexo e legalização das drogas. Poderia ser um cavalo de Tróia para medidas que agradariam à esquerda – se ouvirmos os “católicos hardcore” – mas Milei vê personagens de direita como referência. Eduardo Bolsonaro, filho do Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, já mostrou o seu apoio. Em referência a Adam Smith o candidato até confessou ter deixado de pentear o cabelo para “deixar a mão invisível fazer o seu trabalho”.

O entrevistado concorda que “[Milei] deve estar disposto a fazer alguma aliança com pessoal das típicas listas de direita. Faz algum sentido.” Ele espera que Milei tenha influência suficiente para ser ouvido e corroer os vícios do peronismo. Peronismo nasceu com as políticas sociais introduzidas durante o mandato do presidente Juan Péron, com programas focados na classe trabalhadora, sindicatos e um grande envolvimento do Estado na economia do país. Partilha semelhanças com Portugal, por exemplo, no quadro de nacionalização de empresas. O Partido Socialista português comparado com outros partidos socialistas, investe bastante em empresas, porém faz questão de ter grande influência, senão a maior influência [ex. TAP] na empresa. No quadro social Péron foi progressista, procurando justiça social, e não só se preocupava com o povo, como se considerava o representante de todo esse povo, usando um pouco de retórica anti-elite. Peronismo é assim um misto de socialismo, nacionalismo, e populismo. Todavia cada partido, seja mais à esquerda ou mais à direita, quer mais a mão do estado ou encolher o estado, com confrontos muito similares aos nossos PS e PSD.

Algumas das minhas fontes na Argentina são cristãs, incluindo o jovem com quem falei, que se considera Libertário Conservador. É uma demografia cada vez mais expressiva neste meio e que se encontra no nosso país no eleitorado de partidos como a Iniciativa Liberal e Chega, que ocasionalmente tenho oportunidade de privar. Há várias teorias para isto, mas é justo retirar a conclusão que as guerras culturais estão a forçar os mais religiosos a concretizar alianças estratégicas, ou de conveniência, para salvaguardar a liberdade e seus valores tradicionais que os progressistas radicais, pela mão dos socialistas, pretendem “desconstruir”. É também irónico porque Milei gaba-se de ser um apoiante do amor-livre – “free love” – algo que estaria associado aos hippies, e no entanto identifica-se como Católico. Os Católicos mais conservadores e tradicionalistas não apreciam isto de todo, mas os evangélicos parecem mais dispostos a aceitar o compromisso. Nenhum candidato é perfeito.

Hoje, o papel da religião na direita política e liberalização no mercado permanece um fator ideológico chave, mas guerras culturais têm desenvolvendo mutações no comportamento do eleitorado mais conservador, onde qualquer tentativa de manter alguma ordem ou abrandar um pouco o frenesim do progresso, é considerado reacionário.

Todavia é importante relembrar que Javier Milei representa uma pequena fatia do eleitorado, tal como IL e Chega, e faz da Argentina mais um exemplo de luta contra o status-quo num país onde reina o socialismo tuti-fruti.

A segunda volta das eleições em Novembro retirará quaisquer dúvidas que restem.

 

 

Este artigo é de opinião e por isto suas ideias reflectem a visão do autor e não de todos os membros do Polititank.

 

This article was updated on outubro 20, 2021

Igor Veloso

Igor Veloso é de Águeda, 30 anos de idade, e tornou-se sócio do Polititank em Outubro 2021. Autor do ensaio “Cidadania e Desenvolvimento: Explorando a Existência da Disciplina“, faz parte da equipa de design e edição do Polititank. Deseja que os portugueses tenham mais participação cívica, e estejam mais informados sobre as políticas do país.