Por Igor Veloso

As Nódoas Negras Das Eleições

As eleições têm sempre um impacto gigantesco na sociedade. Tanto na própria, como na internacional, dependendo do país a que nos referimos.

Muito temos ouvido falar em eleições: nas portuguesas, nas francesas, nas chilenas, nas brasileiras, nas alemãs, entre outras de igual, ou não, relevo.

Enfim, nos últimos meses e nos que se seguem, fomos e seremos sobrecarregados com um elenco de diferentes eleições, com diferentes Sistemas Políticos, diferentes ideologias, diferentes candidatos. Toda esta informação requer um sábio e trabalhado processo de seleção por parte do indivíduo interessado (ou até mesmo por parte de qualquer um minimamente atento aos updates dos Mass Media quanto a esta matéria), a fim de conseguir filtrar todas as diferenças existentes no Mundo Político e nos processos eleitorais, ainda que, se traduza, todos no mesmo: Eleições por Sufrágio.

Com tanta bipolarização, polarização -entre outros termos igualmente aceitáveis, conquanto, redundantes-, frequentemente nos esquecemos do próprio conceito, do que as próprias eleições, em si, têm ultrapassado ao longo da história, assim como das vantagens e desvantagens das mesmas e das críticas que lhe podemos tecer, ainda sendo estas, o maior instrumento democrático que podemos ter. O pensamento crítico é extremamente crucial, principalmente em tempos como estes, onde as Fake News reinam, tal como a falta de jornalismo profissional dos Media que escolhem o caminho da parcialidade ao da imparcialidade, os próprios boatos e as chamadas falsas verdades.

A ida às urnas, infelizmente, já não é considerada pela maior parte da nossa Comunidade como um direito cívico, mas sim como uma obrigação que se refletirá, caso não aconteça, na taxa de abstenção que passará na televisão no(s) dia(s) eleitoral(is) (dependendo se estamos perante um regime de uma volta ou duas). Assim, e mesmo para evitar possíveis críticas por parte de conhecidos e da própria opinião pública sensacionalista, as pessoas votam, mesmo não possuindo qualquer conhecimento na matéria, contribuindo para o crescimento de um partido que nem sequer apoiam, acreditam ou, até mesmo, conhecem de forma minimamente profunda.

Este, na minha ótica, é um dos maiores perigos do voto. O voto vazio, o voto em vão, o voto que não só é falso, como prejudica as próprias eleições e os próprios candidatos, que acreditam que o mesmo se traduz num voto de confiança, quando, na realidade, é um voto às cegas. Assim dizendo em linguagem prática.

Claro que, acrescido a esta situação, temos o fator que possivelmente já passou por todas as mentes críticas: intelectualidade versus populismo. Ora, claro que existe uma boa percentagem de pessoas que votam de forma consciente, responsável e séria, todavia, há uma dose significativa de indivíduos que se deixam levar pelo populismo de múltiplos partidos políticos, militantes, candidatos e apoiantes sendo este voto, no fundo, quase que inútil para a democracia dada a ingenuidade da própria ação de voto.

Este tipo de voto é consequência da propagação de frases atrativas, vividas e, obviamente, estratégicas, a fim de afirmar aquilo que o povo quer e deseja ouvir da parte de um líder, conduzindo-o às urnas, muitas vezes não pelo reconhecimento das suas ideias, mas sim, pelas críticas tecidas ao Sistema.

Ora, outra situação que requer, igualmente, a nossa atenção e preocupação, é a questão do voto útil. A expressão voto útil é empregada, no meu ponto de vista, em momentos de quase desespero, por parte de líderes partidários ou até mesmo dos seus militantes, para que ocorra uma mudança de paradigma político. É, ainda, considerada por muitos analistas e pensadores críticos, eu inclusive, como um ato perigoso, não ideológico e de carisma estratégico. Claro que em diversas situações é justificável, como por exemplo, se estivermos perante um regime nocivo para o país, assim como para os seus habitantes –o povo-, onde as condições de vida são desumanas e escassas e onde as eleições livres, por sufrágio, são o único utensílio democrático presente na região. Todavia, são exceções. Por norma, e através da análise das várias eleições a que já assisti, consigo denotar que não é o caso. O voto útil em detrimento do voto ideológico está presente e é uma constante na vida política hoje em dia e, o seu objetivo, é tão vazio como a própria ideologia de quem o emprega.

Esta última frase leva-nos a outra das maiores características das eleições, atualmente, assim como dos votantes. A falta de ideologia política. Nos dias de hoje, o ato de votar não é levado com a necessária seriedade e raros são os indivíduos que se encaminham às urnas para dar seguimento a uma política que realmente acreditam e confiam.

As eleições por sufrágio são, assim, uma ferramenta da nossa Democracia, todavia, há quem defenda que estas são apenas instrumentos de uma ramificação da Democracia: a Democracia Representativa e não das restantes Democracias, por exemplo a Democracia Direta. A Democracia Direta é a mais credível de todas as democracias e é desejada pelos grandes e fortes defensores do nosso regime. Através desta, o próprio povo consegue participar diretamente no processo de tomada de decisões tal como era efetuado na Antiga Grécia, nas grandes Assembleias –praças- de Atenas graças à existência de referendos –algo que Portugal só avistou 1 vez na sua história e fantasia desde então-.

Assim, abrimos um espaço de discussão quanto a esta perspetiva, raramente proferida e defendida, talvez pelo receio da polémica que poderá trazer, por consequência.

Os argumentos acima ditos e reforçados são, no fundo, as manchas que podemos encontrar nas próprias eleições enquanto conceito político, social e, acima de tudo, teórico. Manchas essas que têm sido amplificadas com a evolução dos próprios regimes, dos pensamentos analíticos, da própria ordem mundial e do Mundo em si, que se encontra em constante desenvolvimento.

As eleições por sufrágio, por natureza, as eleições livres, são, portanto, um mecanismo típico de um regime democrático e, mesmo com todas estas brechas e falhas destas, devemos sentir-nos gratos por conseguirmos dar voz aos nossos pensamentos e vontades através do poder de voto.

Por esta razão é que devemos usufruir do poder que nos é concedido enquanto cidadãos, conquanto, ter em atenção e em consideração todas as suas exceções, nódoas e defeitos pois rapidamente podemos converter o seu verdadeiro efeito e provocar o inverso daquilo que é o seu primordial intento: o da democracia.