(Royal Australian Navy photo by LSIS Richard Cordell)

América vs França ou América vs Mundo?

França e Estados Unidos da América (EUA) apresentaram-se, desde sempre, como duas potências mundiais dispostas a caminhar lado a lado, dados os seus objetivos e ideais semelhantes. A sua aliança aparenta resistir aos árduos tempos na política internacional, tal como a nossa aliança Portugal- Reino Unido formalizada através do Tratado de Windsor.

França, que dispõe de uma incrível Armada, possuía um acordo inquebrável com a Austrália. Esse acordo visava a construção multimilionária de 12 submarinos convencionais pela empresa francesa Naval Group. Todavia, recentemente esse ‘tratado’ foi suspenso, e, posteriormente, quebrado, dada a facada da Austrália ao recorrer aos serviços norte-americanos e ingleses justificando que os submarinos dos seus novos aliados eram de propensão nuclear.

Como previsto, as relações francesas e australianas, assim como francesas e norte-americanas, esfriaram. Por sua vez, as relações australianas com os norte-americanos e os ingleses só fortaleceram, formando, na minha opinião, uma aliança particularmente militar e marítima.

Questionava-se o povo francês se seria desta que o Presidente Emmanuel Macron faria frente ao Presidente norte-americano Joe Biden e assumiria uma política defensiva e justa. Tal era espectado, mas não foi cumprido. Pelo menos a rigor. O Embaixador francês na Austrália afirmou, num discurso público, que a França se sentia fortemente enganada perante tal deslealdade. Nos dias seguintes à inédita ocorrência de política externa, nada de Macron.

Macron, fundador do partido político social-liberal, En Marche! tem recebido múltiplas de críticas à custa da sua inércia perante tal afronta dos EUA.

Donald Trump, ex-Presidente dos EUA, ao longo do seu mandato, foi apelidado vezes sem conta de nacionalista e, ainda, de populista, conceito que começou a ter um impacto global aquando da sua tomada de posse.

Há quem diga, inclusive, que a crise populista que se alastrou pela Europa se deve ao fenómeno Trumpista. Trump fora bastante criticado pela cena internacional por ter saído de diversas organizações internacionais intergovernamentais, como do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) e, ainda, da Organização Mundial de Saúde (OMS). Tais políticas não consensuais fizeram os Estados Unidos desabar num posto de isolamento para com o restante palco mundial.

Ora, não estará o Presidente Joe Biden a seguir as mesmas pisadas da Administração Trump?

Analisando os últimos passos da política externa dos Estados Unidos é notória a política de isolacionismo atual elaborada propositadamente, ou não, por Biden. Ora, a inércia dos EUA perante o conflito Palestina-Israel, a retirada das forças militares no Afeganistão sem qualquer tipo de consulta extrínseca, contribuindo para o regresso do regime atual talibã, e, agora, a tensão existente para com a França, são tudo deliberações que comprovam a teoria do possível regresso de uma reclusão dos Estados Unidos. Claro, já para não mencionar a quantidade de europeus retidos nos EUA. Pois bem, Bruxelas declara que a União Europeia autorizou a entrada de americanos no seu território, todavia, Biden, insiste no estabelecimento de uma lista de controle que barra a entrada de europeus.

Aqui chegados, cabe-nos refletir e questionar qual será o objetivo de Joe Biden quanto à Política Externa dos EUA. Excluirá ele, aos poucos, o grande pilar do Mundo Político dos restantes postos de poder? Que explicação plausível poderá existir para justificar tal ineficácia e discrepância, em relação às suas promessas, da Casa Branca? Onde está o “America is back!” utilizado de forma exaustiva para expulsar Trump do poder, com o seu “America First”? Onde estão as promessas de uma América unida, diferente ao que estávamos habituados desde 2016?

Tudo questões que não possuem resposta. O que é certo, e se tem vindo a verificar, é que, mesmo após todas as críticas, as prioridades de Política Externa de Biden têm vindo a assemelhar-se às de Trump e a política do último tem sido alvo de uma prática de continuidade pelo seu sucessor. Estranho, mas real.

Não obstante, é uma questão de tempo até começarem a surgir algumas refutações, ainda que incompletas, dada a comunicação por parte de Biden que iria visitar Macron ainda em novembro deste ano, juntamente com a sua vice-presidente Kamala Harris, provavelmente acerca desta problemática de Defesa e Segurança Externas.

É provável que, como é hábito, Biden tente suavizar o sucedido, coloque o seu ponto de vista à frente e utilize a desculpa da recuperação da confiança bilateral acima de qualquer erro que possa ter cometido.

Iniciou-se este artigo -de caráter crítico- com a exposição de um caso particular de diplomacia (ou a falta dela) militar e de segurança e finalizamo-lo com sérias duvidas quanto à sua sequer existência atualmente.

 

 

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