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 África do Sul: Eleições Locais com Surpresas

O CNA (Congresso Nacional Africano), partido Sul Africano fundado por Nelson Mandela já se encontra no poder há 27 anos, mas as passadas eleições locais durante a semana de 01 de Novembro finalmente mostraram o detrimento que já tanto se suspeitava no partido.

Isto acontece por motivos raciais e materialistas. Raciais porque ressurgem tensões revolucionárias impulsionadas pelo partido da extrema-esquerda, EFF, que puxa uma agenda de supremacia negra; por motivos materialistas porque na última década o GDP estagnou, o desemprego continua a subir a níveis astronómicos, (34.4% (7,8M) de toda a força laboral, entre estes, 40% ou 3,12M negros, estão desempregados), os preços da comida subiram substancialmente, e a corrupção continua apesar das promessas do novo Presidente Cyril Ramaphosa.

O CNA não tem atendido às necessidades do povo, que pioraram com a pandemia, sendo este ano castigados.

A Aliança Democrática (AD) tem tido dificuldade em ganhar popularidade na maioria da população (que é negra), e até tem perdido algum do seu eleitorado principal – minorias brancas, Afrikaans/boer e pessoas de cor – para outros partidos relativamente novos e mais pequenos, incluindo os Zulus, e partidos populistas à esquerda e à direita.

Para sentir um pouco as dinâmicas políticas entre o eleitorado, conversei com uma fonte da África do Sul que tive o prazer de conhecer há alguns anos. Ele deseja ser publicamente identificado como Bruce, e está a graduar-se em Física e Estatística em Pretória, cuja municipalidade é Tshwane. Votou AD mas acredita que estas eleições não mudarão grande coisa a nível nacional, e com muita franqueza confessa que o seu voto nem deve contar para nada, mas o facto das minorias estarem a votar mais que os negros cada vez menos, pode ser culpa da ineficiência e corrupção da CNA, que alienou a sua base eleitoral.

Se seguirmos as tendências de voto, os 80% da população negra, que geralmente vota CNA, decide cada vez mais ficar em casa, enquanto os restantes 20%, as minorias, saem para votar. Os negros que saíram para votar escolheram cada vez mais outros partidos.

A CNA continua a usar um misto de políticas identitárias e materialistas para justificar o voto neles. Ao longo da campanha o CNA tem profetizado que se estes saírem do poder, o país deixará de ter eletricidade, todavia na última década as falhas elétricas e apagões continuam sistematicamente. O senhor Ramaphosa falou a membros da comunidade em Tsabella no município de Ekurhuleni, e “alertou” exatamente para isso: sem CNA não há eletricidade, pois mais nenhum partido resolverá o problema.

Perguntei ao Bruce porque votou AD e justificou motivos materialistas: praticamente todos os serviços como a água, lixo, energia e ruas, só começaram a melhorar quando a AD ganhou no seu município em 2016 e “fizeram o seu trabalho em vez de serem pagos para permanecerem sentados”. Não votou noutros partidos porque esses geralmente apelam a ideologias radicais ou tribais. Aqui falamos respetivamente da EFF e IFP

A EFF é um partido de extrema-esquerda supremacista liderado por um ex oficial do CNA que se demitiu do partido por não o considerar revolucionário o suficiente. Deseja retirar as minorias, especialmente brancas, da África do Sul.

A IFP é considerada por alguns especialistas de direita nacionalista Zulu, e são comunidades tribais que sonham voltar aos líderes tradicionais comunitários. Essencialmente procuram a dissolução do parlamento para que cada província tenha o seu próprio poder, fora de qualquer influência das necessidades de outras províncias. A IFP têm-se tornado muito relevante localmente, especialmente na província Zulu, Kwazulu-Natal.

O CNA ganhou a nível nacional com 47.9% dos votos – primeira vez que o partido teve resultados abaixo dos 50%. Porém este ano o CNA ganhou à AD em Tshwane.

Bruce diz que existe menos densidade populacional fora de Pretória e Joanesburgo, e os negros vivem maioritariamente nas aldeias e pequenas localidades à sua volta. No mapa abaixo é possível ainda ver o fantasma da apartheid onde se vêm os hubs pre-apartheid e apartheid terem eleitores maioritariamente AD e VF+ (Partido de direita Afrikaan), com o resto do território onde vivem negros Sul Africanos, mas também tribais, que optam por voltar ao abrigo das suas tribos e autoridade de líderes locais.

MAPA: Azul – AD (centros populacionais); Verde – CNA (pequenas cidades e localidades onde negros vivem para trabalhar em Pretória, e reduzir custos de habitação e deslocação).

O número de votos em Tshwane foi de 44, 99% =; CNA ganhou com 34,6%, DA com 32%, EFF com 10.7%, Actionsa com 8,6% e VF+ com 7,8%.

A nível nacional os votos totais chegaram aos 45.71%, com 47,9% para CNA, 20% DA, 10,6% EFF e 6,3% IFP (entre outros).

Estas percentagens sugerem, sobre o sistema de representação proporcional Sul Africano, que coligações serão necessárias para governar as cidades e municípios, porque um partido precisa de 50% ou mais para não ter quaisquer problemas de governação. Este ano o CNA está com bastantes problemas.

Imaginemos que a tendência continua até 2024 e as condições não melhoram e promessas continuam a não ser cumpridas, a CNA terá escolhas difíceis a realizar nas Legislativas: aliança pragmática com a AD, ou coligação desastrosa com a EFF, clivando as tensões raciais. Felizmente neste momento o CNA e EFF odeiam-se mutuamente, com o líder da EFF a proclamar “queimar a cobra que é a CNA!” sem ser hiperbólico, logo alternativas à direita moderada parecem mais apetecíveis para manter a estabilidade, se pragmatismo não bastar.

Bruce diz-me que os próprios negros estão à espera de casas prometidas pelo CNA desde 1994. Por agora, parece que as eleições concluíram, e os cortes de luz voltaram, após magicamente desaparecerem durante a semana antes do dia das eleições. Afinal não é só em Portugal que as obras aparecem feitas durante a campanha eleitoral. A política tem os seus feiticeiros.

 

 

Imagem: [Photos: GCIS], sobre licença Attribution-NoDerivs 2.0 Generic (CC BY-ND 2.0)

This article was updated on novembro 21, 2021

Igor Veloso

Igor Veloso é de Águeda, 30 anos de idade, e tornou-se sócio do Polititank em Outubro 2021. Autor do ensaio “Cidadania e Desenvolvimento: Explorando a Existência da Disciplina“, faz parte da equipa de design e edição do Polititank. Deseja que os portugueses tenham mais participação cívica, e estejam mais informados sobre as políticas do país.