A pergunta não é se Macron ganha, a pergunta é: quem vem depois de Macron?

Como era previsível temos Macron a disputar a segunda volta destas eleições contra Marine Le Pen, teremos uma década de Macron em França e na Europa.

O mandato de Macron foi perfeito? Não! De todo.

Mas para mim Macron continua a ser o melhor candidato que já vi em todas as eleições, e é um privilégio poder trabalhar e aprender com o mesmo.

As expectativas eram elevadas, porque em 2017 a campanha foi imensa, ideias inovadoras, muita vontade de fazer as coisas acontecer, apesar de a pandemia ter afectado todos os países e todos os governos, Macron ainda assim conseguiu bons resultados económicos e sociais, entre eles: o maior crescimento económico em meio século, assim como um desemprego estável nos 8%, o nível mais baixo dos últimos 15 anos.

Todavia a pandemia trouxe à tona da água algo de Macron que não foi positivo, mas que aconteceu com todos os governantes (uns mais que outros), de terem o poder total, uma vontade de impor as ideias, a célebre e triste frase: “o meu objectivo é emerdar a vida dos não vacinados.” Não foi positivo e pôs em causa o seu espectro democrático. Por isso, há quem tenha ficado de pé atrás, mas a questão é: “quem há de melhor?”

Macron venceu as eleições, é verdade, mas olhem para o top 5 das eleições:

1º Macron (liberal) - 27,8% - 9 783 058 votos

2º Le Pen (extrema-direita) - 23,1% - 8 133 828 votos

3º Mélenchon (extrema-esquerda) - 22% - 7 712 520 votos

4º Zemmor (extrema-direita) – 7,1% - 2 485 226 votos

5º Pécresse (centro-direita) – 4,8% - 1 679 001 votos

O que temos a retirar daqui é que só três candidatos chegam aos dois dígitos. Desses três candidatos apenas um se encontra no chamado arco democrático, mas o caso fica pior quando depois de dois extremos, aparece mais um e só depois dele volta a aparecer outro candidato do arco democrático, Valérie Pécresse.

Se Pécresse teve esta votação, pior conseguiu a candidata socialista Anne Hidalgo: 1,7% - 616 478 votos. Como disse já no Podcast Conversa, temos estes resultados, mas nas eleições regionais - , sim, porque na França a regionalização já se faz desde há muito tempo e nota-se o desenvolvimento dessas mesmas regiões, - que supostamente eram o barómetro para as presidenciais, vimos o centro-esquerda e centro-direita terem ganho a maioria das regiões, ou até as municipais. O que mostra que uma coisa é o poder dos partidos localmente, outra é a qualidade dos candidatos para dirigirem um país.

Macron vence as eleições e vamos ter mais 5 de Macron e liberalismo à la française, para desgosto de muitos “austríacos”, que têm mais orgulho em pôr nas suas bios a bandeira austríaca do que a portuguesa…

O problema não está que vamos ter um total de 10 anos de Macron, mas sim de que já temos 10 anos de Le Pen e podemos ter 15 anos de Le Pen na oposição, mas resta saber se depois de Macron vamos ter pelo menos 5 anos de Le Pen, é que Mélenchon parece ser também teimoso suficiente e anda revigorado para cá andar mais 5 anos e acumular um séquito de jovens utópicos que acham que na vida é apenas abanar as árvores e que a China é um exemplo de democracia a seguir.

O futuro é mais incerto do que o presente, e o centro democrático vai precisar de se reinventar, sobretudo na comunicação e mostrar que há ideais que são intemporais e válidas e que são os alicerces de uma sociedade ocidental democrata liberal. Pois sempre achei eu é no centro que está a virtude e não numa política extremada/polarizada como defendem Le Pen; Mélenchon ou Zemmour.

Por isso, a pergunta não é se Macron ganha, a pergunta é: quem vem depois de Macron?